Domingo, Fevereiro 15, 2009

Humanismo e crítica democrática, de Edward Said

Edward Said(1935–2003) foi um dos mais importantes críticos literários e culturais dos EUA, além de professor de literatura na Universidade de Colúmbia. Nascido em Jerusalém, foi também um dos maiores advogados dos direitos do povo palestino. Said é mais conhecido por sua obra publicada em 1979 e que é um dos marcos da teoria pós-colonial, uma vertente pós-moderna da teoria crítica literária. Em Orientalismo (1979), Said ele sugere que o Ocidente criou uma visão distorcida do Oriente como o "Outro", numa tentativa de diferenciação e de categorização do próprio Eu-ocidental e que, de certa forma, servia os interesses do colonialismo. A crítica pós-colonial integra uma visão pós-moderna que de certa forma sugere que as realidades observadas são montadas por um discurso enviesado e recheado de interesses dos grupos dominantes [1].

Venho aqui, entretanto, comentar o livro Humanismo e crítica democrática, desenvolvido a partir de um conjunto de conferências apresentadas por ele -- em janeiro de 2000 -- na Universidade de Columbia.

Edward Said foi um teórico literário e crítico cultural palestino. Foi professor de inglês e literatura comparada na Universidade de Columbia, nos EUA. É tido normalmente como um dos fundadores da teoria pós-colonial (veja texto).


Também nesta obra que agora comento, Said argumenta sobre a questão pós-colonial, sobre a riqueza das culturas e sobre o fato de que elas devem, muito mais do que lutar, coexistir e interagir proveitosamente umas com as outras. O autor lamenta -- e este cientista que vos fala com ele -- o declínio dos estudos das humanidades nos últimos anos em prol do desvio de verbas para interesses militares, médicos, biotécnicos e corporativos. Lamentando ainda os ataques do Onze de Setembro, teme que a resposta ideológica a esses atentados venha reforçar ainda mais a visão enviesada e eurocentrista do mundo contemporâneo. Os humanistas, segundo o autor, não devem jamais esquecer o dito de Walter Benjamin de que todo documento de civilização é também um documento de barbárie. A prática humanista deve levar em consideração que as sociedades contemporâneas têm histórias múltiplas e que não podem ser confinadas a uma única tradição, raça ou religião. Tais sociedades são multiculturais e devem ser capazes de reconhecer e transpassar o problemas advindos desta retaliação cultural, reconhecendo os direitos e as necessidades de cada grupo que as constitui, ao invés de tentar separar e pregar a ordem de uns sobre a de outros.

Said critica também o que chama de leiturismo, onde uma leitura atenta de certos textos pode guiar o leitor erroneamente por estruturas de poder e autoridade passadas pela ideologia do autor. Ainda seguindo uma tradição pós-moderna [2], Said argumenta que algo interessante sobre uma grande obra é que ela gera mais -- e não menos -- complexidade à medida que vai sendo analisada por diferentes pensadores ao longo do tempo, podendo gerar uma teia inteira de notações culturais até contraditórias. Este leitor concorda com o argumento e pensa na Bíblia -- que já foi utilizada para defender os mais belos atos de caridade e as mais cruéis guerras -- como exemplo mais crasso do argumento.

O livro de Said "Humanismo e crítica democrática". Uma crítica acirrada e inteligente à atitudes antidemocráticas e antiintelectuais da cultura moderna. Altamente recomendado por este blogue, particularmente a conferência disposta no capítulo 3. Companhia das Letras, 2004. (c)


Vale a pena deixar Said falar por si mesmo, com a clareza argumentativa que tem e o vigor dos bons argumentos:

"Pois, se como acredito, está em andamento em nossa sociedade um ataque ao próprio pensamento, sem falar no assalto à democracia, à igualdade e ao meio ambiente, pelas forças desumanizadoras da globalização, valores neoliberais, ganância econômica (eufemisticamente chamada de livre comércio), bem como ambição imperialista, o humanista deve oferecer alternativas agora silenciadas ou indisponíveis pelos canais de comunicação controlados por um pequeno número de organizações de notícias. Somos bombardeados por representações pré-fabricadas e reificadas do mundo que usurpam a consciência e previnem a crítica democrática, e é a derrubada e desmantelamento desses objetos alienantes que (...) o trabalho do humanista intelectual deve ser dedicado."

A crítica pós-moderna quanto à relação entre o-que-se-vê/o-que-é na sociedade se faz bem clara neste trecho.

Said faz ainda uma homenagem ao livro Mimesis, de Auerbach, dedicando uma palestra inteira (capítulo 4) a descrever e comentar este trabalho que, segundo ele, representa a maior e mais influente obra humanista-literária dos últimos 50 anos (foi publicada nos EUA, em 1953). Finalmente, Said chama escritores e intelectuais à ação:

"O papel do intelectual é, num modo dialético, oposicionista, revelar e elucidar a competição a que me referi antes [entre a cultura de massa capitalista e o interesse democrático do povo], desviar e derrotar tanto um silêncio imposto como a quietude normalizada do poder invisível em todo e qualquer lugar e sempre que possível. Pois há uma equivalência social e intelectual entre a massa de interesses coletivos dominadores e o discurso usado para justificar, disfarçar ou mistificar suas operações, prevenindo ao mesmo tempo as objeções ou questionamentos que lhe são feitos."

E uma citação final para ser refletida pelo povo brasileiro, imerso num mar de desigualdade:

"A paz não pode existir sem a igualdade; esse é um valor intelectual que precisa desesperadamente de reiteracão, demonstração e reforço."

Viva Said!

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[1] Atitude também denominada historicismo ou novo historicismo, quando associada ao conhecimento histórico. Ver Vico, em A nova ciência.
[2] Principalmente relacionada à multiplicidades de sentidos de uma obra, ao foco no leitor e a certo relativismo analítico -- sendo que essas três observações podem ser facilmente colapsadas em uma só.

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1 Comments:

Blogger olá, sou joão miguel: said...

Olá :)

Ainda li nada do Edward Said e encontrei seu blog por estar procurando em qual livro (se houver um livro específico) ele fala de interculturalismo. Em "Humanismo e crítica democrática", ele trata de multiculturalismo ou interculturalismo para analisar o mundo de hoje? Você percebeu alguma diferença? O que há a esse respeito no livro?

2:14 PM  

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