Sobre a veracidade na literatura

O excelente livro "O diário de um farol", de João Ubaldo Ribeiro. Contado em primeira pessoa, o livro começa com o personagem-narrador dizendo que toda a história que está prestes a contar consiste na mais pura verdade.
Comecei aquele texto com um aviso (disclaimer) ao leitor: o que eu estaria relatando ali não estaria absolutamente conectado de forma clara à verdade do que acontecera. É que às vezes escrevo textos literários para o blogue e as pessoas estão sempre a achar que tudo aquilo aconteceu comigo e que tudo foi uma verdade que eu tenha vivido. Isso não é verdade.
A verdade é que há textos que são mais próximos do que realmente ocorreu e outros que são assaz distantes do fato verídico, tendo na realidade apenas a idéia motora inicial para o desenvolvimento de uma história qualquer. Particularmente neste texto que começava com o disclaimer, eu relatava sobre pessoas que conheci em situações profissionais; e a profissão era uma parte relevante do assunto, de forma que não podia ficar de fora do relato. Mas exatamente por se tratar de um fato profissional, queria deixar claro que estava romanceando a história e que -- caso alguém do meu círculo profissional lesse o caso -- deveria entender que nada daquilo havia de fato acontecido. Ao menos, não daquela forma.
Dito isto, escrevi o que tinha para escrever. Havia sexo na história e sexo é algo que ainda choca as pessoas, principalmente se associado a um sentimento libertário e livre como era o deste texto. Terminei a escrita do texto e o reli, como de costume. De repente o disclaimer apresentado na introdução pareceu-me idiota: estava claro que era uma ficção, não realidade. Mas todos os outros textos daquele blogue haviam sido escritos na mesma filosofia, porque fazer o disclaimer só para aquele? Par contre -- como o diria o francês --, pareceu-me também que saber da falsidade de uma história antes de lê-la tirava-lhe um pouco a graça. Faz parte da literatura transportar o leitor para um mundo que, se não aconteceu, poderia muito bem ter acontecido. Assim, de certa forma a literatura consiste sim em uma realidade, ainda que desconectada desta que temos no mundo dito real, mundo do viver que se situa entre o acordar e o dormir.
E quando pensava sobre tudo isso, veio-me à cabeça a lembrança do início do livro "Diário de um farol", escrito por João Ubaldo Ribeiro. O livro -- muito bom! -- trata das histórias de um sujeito perverso e sociopata, algo que não vem ao caso agora. O que realmente vem ao caso é que ele começa a história com a estratégia completamente invertida com relação à minha de apresentar o disclaimer. Ainda que a história tenha sido completamente inventada por João Ubaldo, este transveste-se do personagem e começa o livro dizendo que irá contar exatamente sua história verídica. Narrando sempre em primeira pessoa, o personagem-narrador diz que foi exatamente aquilo que viveu e que aquela é toda a verdade sobre sua vida até onde ele possa realmente alcançar [1].
Ora, vejo então que João Ubaldo tomou exatamente a linha ideológica oposta à minha. Ao invés de apresentar seu texto como uma ficção, de forma contrária ele reforçou a presença da realidade em seu relato. E este sentimento é tão forte no livro, os sentimentos do personagem são tão bem descritos e elaborados que por vezes chegamos a pensar, durante a leitura: "será que não foi mesmo esse cara que escreveu? Será que João Ubaldo não é apenas um ghost writer para esse sujeito perverso?". E este pensamento não é senão a atestação de uma enorme qualidade literária deste escritor baiano e membro da Academia Brasileira de Letras. Salve, João!
Sobre o meu texto, tirei o disclaimer e publiquei daquele jeito mesmo. As pessoas que pensem o que quiserem.
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[1] Tudo isso vale apenas se considerarmos que minha lembrança não me prega peças sobre este livro. Como já o li há algum tempo, pode ser que eu diga alguma coisa ligeiramente falsa aqui. E como isso não é literatura, mas são sim pensamentos e um pouco de crítica literária, isso precisa ser dito.
Marcadores: literatura


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