Quebrei o braço
Foi na última terça-feira. Voltava pra casa do serviço depois de passar numa loja para comprar umas blusas de meia-temporada pois que o outono já tem cara de estar chegando. Andava daquele jeito despojado que tenho de andar de bicicleta. Ia sem as mãos e fazia manobras para me desequilibrar e então me equilibrar de novo, essas brincadeiras assim. Ainda assim, não foi esta a culpa do tombo. A displicência ocorreu quando coloquei minha mochila no porta-bagagem sobre a roda traseira da magrela. Não coloquei muito bem a mochila ali e a alça da mesma enroscou na roda na hora do tombo, parando imediatamente a roda de trás da velô -- como dizem por aqui. Ia rápido, marcha mais veloz. A roda parou de repente e também a bicicleta. Continuei meu movimento inercial para frente, trombei no guidão e caí para o lado direito. Foi tudo muito rápido, não vi muito bem o que tinha acontecido. Ia pela rua, os carros passavam. Na hora que caí, não havia nenhum veículo por perto, felizmente. Caí para o lado direito, onde os carros estavam estacionados. Protegi-me da queda com o braço e ralei todos os meus apoios do lado direito. Ombro, cotovelo, pulso e joelho. Dei sorte de não ter batido a cabeça e nem mesmo a cintura cheguei a machucar. Quando vi estava no chão, tonto, a bicicleta por cima. Veio um sujeito que andava de bike para o outro lado me acudir. Ele parecia mais nervoso que eu. Levantou minha velô, ajudou-me a levantar. A bicicleta dele havia ficado no meio da rua. Agora um carro passava e ele foi tirá-la de lá. Tentei ficar em pé mas estava bem tonto. Segurei no poste. Todo meu lado direito doía muito. Entretanto não pensei que tivesse quebrado coisa alguma, pensei que estava tudo doendo por causa do tombo. O sujeito perguntou se eu queria alguma coisa, alguma ajuda. Eu disse que não. Agradeci e falei que estava bem. Ele perguntou de novo e eu agradeci de novo, ele foi embora. Agora arrependo, devia ter ficado mais tempo conversando com ele porque nem eu -- e nem ele -- estávamos bem. Ele vira minha queda de camarote e estava também eufórico. Ele se foi. Assentei-me no chão por um tempo até que a cabeça parasse de rodar. Não parou. As pessoas passavam em volta. Levantei-me custosamente, estava cerca de 500 metros de casa. Tentei pegar a bicicleta percebendo que meu braço não estava lá muito bem. Mesmo assim ajeitei a mochila no porta-bagagem com as roupas novas e fui andando e levando a bike, a passos de tartaruga, até chegar em casa. Ombro e cotovelo e pulso e joelho ralados. Nunca demorei ou sofri tanto para andar meio quilômetro. A bicicleta estava em perfeito estado, nem parecia ter caído. Eu estava tonto e com dores. Prendi-a no primeiro lugar que encontrei do lado de fora do prédio e subi de elevador. Cheguei em casa e queria apenas me deitar. Tomei ainda um banho para me tranqüilizar e decidi tomar um anti-inflamatório para evitar algum tipo de reação inflamatória no braço. Liguei para a gatinha, que não me atendeu. Liguei para o amigo-doutor, que também não me atendeu. Liguei para o Gustavo e disse que tinha caído e que era pra ele ficar com o celular do lado da cama esta noite. Se eu precisasse dele, ligaria. Ele se mostrou solícito e preocupado; falou que faria isso sim. Dormi até bem e acordei no dia seguinte com o braço ainda bastante dolorido, na dúvida se iria ao trabalho ou não. Decidi não ir, mandei um e-mail para os chefes explicando a situação e fui procurar resolver o problema, indo primeiro ao seguro social para pegar um número que se usa aqui na França para casos médicos e que eu ainda não tinha. Fiquei algum tempo para conseguir um número provisório que depois descobri não adiantar em nada. No seguro social também não souberam me indicar nenhum médico para visitar. Liguei para o Gustavo e ele me convidou para almoçar com ele, dizendo que depois ligaria para seu médico e que iríamos juntos. Almocei na casa do amigo enquanto discutíamos desigualdades no Brasil. Eu com minha visão assistencialista, ele com sua visão individualista. Como seu médico não atendia aos repetidos telefonemas, fomos à medicina universitária. Uma médica loira, quarentona e bela, que gostava do sotaque brasileiro, atendeu-me e fez um pedido de radiografia para o pulso e o cotovelo. Eu que pedi, talvez devesse ter pedido para o ombro também. Os médicos confiam muito nos pacientes. O Gustavo ainda me acompanhou e esperou a radiografia ser feita, radiografia esta que tive que pagar devido ao fato do tal do número provisório não funcionar e que revelou que meu pulso estava bom mas que eu havia quebrado a ponta de um dos ossos do cotovelo; provavelmente precisaria engessar. Voltei à médica loira e quarentona e ela ficou surpresa com o diagnóstico, não pensava que havia quebrado. Ela não poderia engessar, eu teria que ir a um hospital do outro lado da cidade. O Gustavo a essas horas já havia sido dispensado e agradecido pela ajuda, fora cuidar de seus afazeres. Peguei o trem e uma hora depois cheguei ao hospital da Hauptpierre. Custei a encontrar o lugar certo onde deveria ir. Finalmente cheguei na seção de emergências traumatológicas e fui atendido. Preenchi algum formulário e fui então direcionado a uma sala de espera. Apesar de haver só mais um sujeito por lá, fiquei ainda esperando por cerca de uma hora até ser atendido. Neste ínterim, li todas as informações que iam nas paredes e já sabia algo sobre os procedimentos hospitalares franceses. Tendo sido finalmente recebido pelo médico, ele me perguntou o que fazia e eu disse que era pós-doutor, trabalhava na universidade. Perguntou-me então o que acontecera e expliquei tudinho, inclusive sobre o anti-inflamatório. Ele perguntou se eu era biólogo mesmo ou médico, fez cara de quem não gostou da minha auto-medicação. Perguntou se eu havia tomado algum tipo de vacina contra o tétano nos últimos dez anos. Pela minha dificuldade de expressão em francês, ele já havia percebido que era estrangeiro e falei que vinha do Brasil. Mais uma vez, cara ruim. Não vacinado, brasileiro. A vacina anti-tetânica durava dez anos e era preciso tomar três doses durante dois ou três meses. Ficou na dúvida sobre o tempo entre as doses, mas não conferiu. Disse que eu deveria tomar. Perguntei porquê, uma vez que o tétano era causado por uma bactéria anaeróbica e normalmente acontecia quando do corte profundo feito com metais. Se eu havia apenas ralado e deixasse a ferida aberta, não haveria chance de pegar tétano. Ele, entretanto, disse que havia perigo sim e que eu deveria tomar a vacina: era só uma picadinha, afinal. Além disso completou dizendo que o tétano não era provocado por uma bactéria, mas por um "germe" e que causava retesamento muscular e outros sintomas que poderiam me matar em questão de dias. É claro que ele estava errado sobre o "germe": "germe" é um termo geral utilizado para micróbios como bactérias, fungos ou vírus. O tétano é sim, como eu havia dito, mais especificamente causado por uma bactéria anaeróbica. Fiquei desconfiando do médico e então disse-lhe que não sabia se queria tomar a vacina pois que tinha vários amigos imunologistas que questionavam o poder da vacina. Disse-lhe também que a teoria por trás da vacinação ainda não é bem compreendida e perguntei se eu poderia não tomar a vacina. Ele disse que eu bem poderia, mas recomendou novamente falando dos sintomas e dizendo que se tratava apenas de uma picadinha. Enfim, mesmo estando impressionado pelo fato do médico não saber a diferença de doenças bacterianas para doenças virais ou fúngicas, resolvi aceitar. No fundo, é fato que mesmo os imunologistas concordam que a vacinação é efetiva para evitar doenças e por vezes lembrei de ter tido um certo retesamento muscular. Seria tétano? Acho que não, mas... Preferi tomar a vacina e então o outro médico, que lembrava um dos doutores loucos daquele filme "brilho eterno de uma mente sem lembranças", aplicou a injeção em meu braço. Ele quis aplicar no braço esquerdo, mas pedi para fazê-lo do direito, que já estava inutilizado mesmo. E então apareceu na sala uma enfermeira gorda com uma tipóia especial. Não seria preciso engessar. Achei ótimo! Colocou a tipóia em mim com cuidado e não me deixou mexer, ela que colocaria. Ficou desconfortável. Talvez fosse mesmo pra ficar assim. O médico disse-me para que voltasse duas semanas depois para fazer outra radiografia e ver como estava o braço. Provavelmente demoraria ao menos duas semanas para voltar ao normal. Saí finalmente de lá, feliz por não ter sido engessado, impressionado com o fato do médico não saber que tétano era uma doença bacteriana e prevendo duas semanas difíceis. Não tenho muita força, nem consigo apoiar nada com o braço direito, embora tarefas como digitar um texto como este não sejam por demais problemáticas se feitas de tempos em tempos. Já lavar roupas e louças, varrer a casa e arrumar a cama serão tarefas por demais incômodas durante este tempo. Estou mais chato do que o normal e sensível a coisas simples. A doença nos faz questionar nossos valores e perceber o quanto a saúde é um bem vigoroso. De fato os deficientes precisam mesmo de ajuda social, o mundo é muito mais difícil para eles. Tenho apenas um braço quebrado e tudo que gostaria era de ficar na cama com alguém fazendo todos os meus desejos. Ah, se eu pudesse... aqui estou no serviço a trabalhar mesmo que o médico tenha me dado um formulário que me permite faltar o trabalho por duas semanas. Essas coisas não funcionam na prática, dá vontade de pedir ao médico para ligar ao chefe. Mas ele jamais faria isso. Enfim, preciso voltar ao trabalho, já divaguei demais por hoje. Deseje-me boa sorte na recuperação.


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