Quarta-feira, Novembro 11, 2009

A série Cosmos, de Carl Sagan

Sinceramente chegam-me a faltar palavras para descrever quão agradecido não tenho sido -- ao longo de minha curta vida de estudos e questionamentos -- ao grande divulgador de ciência e astrônomo Carl Edward Sagan. E esse agradecimento dá-se tanto pela produção de várias de suas obras de divulgação do conhecimento, à sua excelente ficção científica Contato quanto a esta série televisiva de extrema didática, perfeição e bom gosto. Tento aqui representar toda a humanidade neste agradecimento a Sagan por produzir uma sequência de filmes assim tão motivadores quanto são os da série Cosmos. Sagan chega ao triunfo de conseguir ressuscitar o meu já cansado gosto e delírio pelo "fazer científico". Com dados históricos perfeitos, uma visão positiva e otimista, metáforas científicas deliciosas e idéias simples, arrisco-me a dizer que a série Cosmos de Carl Sagan será ainda por muito tempo a melhor série científica televisa já produzida por seres humanos.


O livro Cosmos de Carl Sagan, que deu origem à melhor série televisiva que já tenha me chegado ao conhecimento. Ciência, filosofia, história da ciência, conhecimento, estética e sonho. Tudo está em Sagan, tudo está em Cosmos.


A série cosmos consiste em 14 documentários de cerca de uma hora de duração produzidos entre 1978 e 1979. A série foi televisionada em 1980 em canais públicos da TV norte-americana e teve custo estimado de US$8 milhões. Ganhou diversos prêmios, como o Emmy, e segundo o sítio da wikipedia, a séria foi assistida em mais de 60 países por mais de 500 milhões de pessoas -- ou seja 8% da população mundial. Quiçá todas essas pessoas tivessem assistido com atenção e se inspirado como este blogueiro. Sagan apresenta-nos nesta série todo o arcabouço do conhecimento científico de sua época, vai da física à química e a biologia; chega à neurociência e compara a evolução do cérebro com a evolução das cidades. O físico jamais titubeia em suas afirmações e nos dá a certeza e a sensação de que gerar conhecimento é fazer a coisa certa, é melhorar a humanidade. Sagan tem uma epistemologia positivista e inaugura de certa forma o movimento racionalista e secularista que hoje engloba uma grande gama de cientistas em todo o mundo. Com uma entonação de voz que chega a ser engraçada ou parecer forçada de tão motivadora, Sagan nos apresenta as maravilhas que o questionamento honesto do mundo nos permitiu alcançar.

Físico e astrônomo de formação, Sagan participou da elaboração e idealização de vários projetos de sondas espaciais que viajaram pelo universo e nos trouxeram as mais maravilhosas fotografias sobre a identidade do universo: Marte, Júpiter, Saturno, super-novas, anãs brancas, pulsares e outras galáxias distantes; afastando-se de nós e emitindo luz no comprimento de onda do vermelho. Particularmente, os filmes 2 e 11 tratam com vigor de assuntos mais relacionados à área biológica, nos quais Sagan também trafega com exímia desenvoltura. Com exemplos dos mais impressionantes sobre pesquisas na fronteira do conhecimento científico e idéias geniais sobre questões há muito já estressadas -- como o calendário cósmico --, Sagan nos presenteia com o que de mais belo pode haver em nossa busca do saber. No filme 11 da série, cujo título é uma alusão ao quadro de Salvador Dali "A persistência da memória", Sagan explica o conceito de informação e viaja dos genes ao cérebro, passando pela evolução das cidades e pela invenção da imprensa. A metáfora do funcionamento e evolução das estruturas cerebrais quando comparadas à evolução da cidade de Nova Iorque é simplesmente uma das mais esclarecedoras idéias sobre a evolução do cérebro do qual eu já tenha sido apresentado -- e expande as observações que o cientista apresenta em sua obra de divulgação entitulada "Os dragões do éden".


O físico, divulgador de ciência e racionalista Carl Sagan (1934–1996). Um dos maiores cientistas do século XX, escreveu diversos livros de divulgação do conhecimento científico e influenciou toda uma geração de jovens cientistas, da qual -- sem qualquer sombra de dúvida -- este blogueiro faz parte.


Imagino, de fato, que Sagan deve ter sido um tanto quanto influente nas esferas públicas da ciência americana e deve ter tido papéis importantes da administração da ciência de seu país por algumas décadas. Acho praticamente impossível que alguém -- mesmo Sagan -- tenha um conhecimento tão amplo de ciência sem que tenham chegado às suas mãos projetos para analisar das mais diferentes áreas da ciência natural. Nem Sagan seria tão brilhante assim para tirar tudo isso de uma cartola e acredito que muito provavelmente ele esteve envolvido na alta esfera do financiamento científico americano, julgando com eficiência os projetos mais interessantes que tenham surgido na América ao longo da segunda metade do século XX. Enfim, posso estar errado nesta colocação.

Tendo já lido uma meia-dúzia das obras de Sagan, creio finalmente precisar ler o livro Cosmos para tentar apreender ainda mais detalhes interessantes sobre a história da ciência e do pensamento intelectual que Sagan nos proporciona nesta série de documentários. Sua explicação sobre a velocidade máxima possível para a luz, dentre outras idéias com relação ao paradoxo dos gêmeos e à viagens próximas à velocidade da luz, são simplesmente brilhante e me permitiram finalmente compreender vários conhecimentos que ainda tinha como nebulosos com relação à física einsteinena. Sua defesa dos Jônicos é deliciosa e conhecer a histórias de algumas personalidades da ciência também nos inunda de conhecimento e esplendor.

Como apaixonado pela ciência, não posso deixar de prestar meu tributo a Sagan; provavelmente o maior divulgador de ciência de todos os tempos. Parabéns, Mr. Sagan! E três vivas para a ordem existente no universo que nos apresenta ao questionamento e análise: viva o cosmos! Viva! Viva!

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A série Cosmos pode ser toda visualizada no YouTube com legendas em português. E há também outra versão do filme dublada disponível... embora seja muito mais agradável escutar a voz de Sagan com suas entonações características do que a voz monótona do dublador. Recomendo a versão em inglês. Prometo ainda voltar aqui futuramente para comentar um ou outro episódio em especial que tenha me comovido mais; e foram vários. Segue abaixo a lista dos filmes e o link para o youtube. Apenas o último filme não está legendado para o português. Boa diversão!

  1. Episódio 1: As margens do oceano cósmico; "The Shores of the Cosmic Ocean"
  2. Episódio 2: Uma voz na sinfonia cósmica; "One Voice in the Cosmic Fugue"
  3. Episódio 3: A harmonia dos mundos; "The Harmony of the Worlds"
  4. Episódio 4: Céu e inferno; "Heaven and Hell"
  5. Episódio 5: O planeta vermelho; "Blues for a Red Planet"
  6. Episódio 6: A saga dos viajantes; "Travellers' Tales"
  7. Episódio 7: O esqueleto da noite; "The Backbone of Night"
  8. Episódio 8: Viagens pelo tempo e espaço; "Journeys in Space and Time"
  9. Episódio 9: A vida das estrelas; "The Lives of the Stars"
  10. Episódio 10: O limite da eternidade; "The Edge of Forever"
  11. Episódio 11: A persistência da memória; "The Persistence of Memory"
  12. Episódio 12: Enciclopédia galática; "Encyclopaedia Galactica"
  13. Episódio 13: O futuro da Terra; "Who Speaks for Earth?"
  14. Episódio 14: "Ted Turner Interviews Dr. Sagan"

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Terça-feira, Outubro 20, 2009

Domenico de Masi

Domenico de Masi é um sociólogo italiano, mais conhecido por seu célebre livro "O ócio criativo". Acredito que como um estudioso da sociedade contemporânea, o italiano foi capaz de criar uma teoria eficiente -- baseada na sociologia do trabalho -- capaz de explicar os dramas presentes e futuros da sociedade moderna e pregar um modelo de desenvolvimento belo, interessante e criativo para o século XXI.


O sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de idéias como "O ócio criativo" e estudioso dos movimentos criativos do século XX e dos dramas trabalhistas na sociedade pós-industrial.

Tentarei resumir aqui três de suas principais idéias que considero interessantes e originais:

  1. O desenvolvimento da sociedade contemporânea (pós-industrial)

    Domenico divide a evolução de nossa sociedade em três partes, baseado sempre na principal atividade dos trabalhadores em determinada época: (i) a sociedade pré-industrial, onde a maior parte dos trabalhadores trabalha no campo produzindo alimento e bens de consumo primários; (ii) a sociedade industrial que veio depois da revolução industrial (início do século XIX) com a criação de maquinário e onde os trabalhadores agora trabalhavam em linhas de produção sendo responsáveis por apertar parafusos ou bater pregos [1]; (iii) e a sociedade moderna, ou pós-industrial, onde as máquinas/tecnologias fazem o trabalho duro dos operários da era industrial. Agora a maioria dos indivíduos trabalha no setor de serviços e o trabalho é mais intelectual do que manual. Os batedores de pregos foram substituídos por trabalhadores do tele-marketing.

    Embora Domenico ressalte o fato de que numa sociedade industrial não se tenha acabado com os camponeses; e que numa sociedade pós-industrial ainda existam trabalhadores dando duro nas fábricas, e também no campo; o sociólogo está mais interessado na forma como a maioria dos trabalhadores da sociedade exercem seu papel.

    Ele argumenta ainda que determinados países como o Brasil praticamente pularam a fase industrial e passaram quase diretamente da fase pré à pós-industrial. Dessa forma também, passamos muitoo tempo como "escravos" (leia-se consumidores) dos produtos industrializados do primeiro mundo [2]. O desenvolvimento de nossa indústria nas últimas décadas tem nos permitido uma certa independência industrial, ainda que boa parte deste capital seja estrangeiro.

  2. A luta entre capitalismo e socialismo

    Acho muito interessante quando De Masi diz que a grande guerra entre modelos sociopolíticos no século XX, foi a guerra entre capitalismo e socialismo. Ele completa argumentando que o socialismo parece ter perdido a batalha quando da queda do muro de Berlim, entretanto, ele é enfático: "o socialismo perdeu, mas o capitalismo não ganhou".

    Há dez anos, De Masi já teorizava sobre a quebra do capitalismo ferrenho que com Bush parece ter tido (esperamos) seu último e amargo suspiro. O sociólogo então argumenta sobre a crise americana e diz que o império americano está em decadência. O império deles não tem um lastro social, posto que vem de uma sociedade de cerca de 200 anos cujo modelo político não é estável e divergiu em grande medida de seus ideais liberais históricos de fundação da nação americana. Domenico associa a política americana a um modelo político machista e opressor, com explorações acontecendo de forma pesada, belicosa e desumana. Uma vez tendo percebido e previsto a queda do império americano, Domenico então busca de onde poderia surgir um novo modelo sustentável de mundo. Ele argumenta em prol da feminilização do mundo e sugere que o modelo do século XXI privilegiará a compaixão, o ócio criativo e a ajuda social.

    Este terceiro modelo a suplantar capitalismo e socialismo e substituir este modelo capitalista americano machista e opressor poderia ter vindo do mundo árabe, sugere o sociólogo. Entretanto este modelo tem as mas características do modelo americano, a saber: é belicoso, machista, opressor e ineficiente quanto o modelo político para uma sociedade de massas que precisa se desenvolver. Assim, a terceira via árabe já nasce em sua própria cova.

    O quarto modelo, que De Masi acredita mais eficiente, seria o modelo latino. O latino é povo que tem uma alegria de viver apesar das dificuldades e que é um modelo alegre, inteligente, criativo e dotado de compaixão com os mais necessitados. Seria um modelo capitalista onde haveria uma ajuda eficiente aos menos capacitados e injustiçados por fatores históricos ou sociais. A sociedade precisa evoluir em conjunto e a opressão dos menos necessitados pelo modelo capitalista gera enormes problemas sociais como hoje vemos nos países em desenvolvimento. É preciso um modelo que privilegie o social e ajude das mais diversas formas possíveis, os indivíduos mais necessitados. É preciso diminuir a desigualdade para que todo o sistema avance.

    Domenico sugere que talvez justamente nós, o Brasil, possamos vir a ter um papel de destaque ao longo do século XXI se formos capazes de erigir um modelo novo de capitalismo com mais justiça social. O sociólogo sugere que, se encontrarmos uma fórmula eficiente para crescermos com justiça social, provavelmente esta será a fórmula a ser adotada no resto do mundo. Ele diz que o Brasil pode ser o grande líder dos países de terceiro mundo e de uma nova ordem mundial se formos capazes de fundar este novo modelo político para o alvorecer do terceiro milênio. O problema do Rio de Janeiro basicamente resume o problema do mundo inteiro no século XXI. Será que seremos capazes de resolvê-lo? Domenico ao menos parece acreditar que este novo modelo deve chegar através dos países do terceiro mundo, que precisarão crescer com saúde política e social. [3]


    O presidente Lula, estadista brasileiro que foi capaz de compreender que o novo capitalismo do século XXI só pode existir com mais justiça social. Herdeiro e praticante (em certos aspectos) da política sugerida por De Masi, diminuiu a desigualdade no país e tem tentado promover mais justiça social. É claro, estamos apenas no começo... uma reforma ainda maior terá de surgir ao longo dos próximos anos. [4]


  3. O ócio criativo

    Com sua argumentação embasada em sua área de especialidade acadêmica, a sociologia do trabalho, Domenico agora filosofa sobre as relações de trabalho neste novo século. Primeiro, ele sugere menores jornadas de trabalho diárias e brilhantemente conclui o óbvio: com pessoas trabalhando menos horas por dia, haverá a necessidade de mais postos de trabalho e, portanto, haverão menos desempregados. Ele sugere fortemente que sejam adotados pelas sociedades trabalhos em meio-período; o que sem dúvida diminuirá a taxa de desemprego. Ele sugere também uma maneira mais livre de trabalho, que privilegie a criatividade; é a favor de horários livres de trabalho, ambientes limpos e esteticamente agradáveis.

    Posteriormente, Domenico faz uma constatação clara: devido aos avanços da tecnologia, os seres humanos estão vivendo mais. E considerando que têm hoje uma grande sobrevida com relação ao tempo de suas aposentadorias, somado à possibilidade de trabalharem com jornadas mais curtas, ele mais uma vez brilhantemente conclui que os indivíduos do futuro terão cada vez uma quantidade maior do que chama de "tempo livre". A sociedade industrial, entretanto, educou os indivíduos para trabalhar, mas não os ensinou como gastar seus tempos-livres. Então o indivíduo aposenta-se hoje cedo e daí por diante não é mais capaz de gastar sua ainda relativa juventude e força de trabalho em algo útil, belo ou eficaz para si e para a sociedade. A sociedade industrial não disse ao trabalhador o que ele deveria fazer em seu tempo livre; nem mesmo a sociedade pós-industrial dá esse subsídio ao indíviduo que então se aposenta e vê sua vida perder todo o sentido. O trabalhador do século XX não sabe aproveitar seu tempo livre em atividades de crescimento pessoal e profissional; e a grande maioria deles morre intelectualmente quando de sua aposentadoria. E a morte intelectual parece ser normalmente acompanhada também de decaimento físico e moral.

    É preciso, argumenta De Masi, um novo modelo de trabalho que privilegie a criatividade e o tempo-livre. É só com o abuso do tempo-livre que o indivíduo pode ficar tranquilo e relaxado o suficiente para refletir sobre suas ações e produzir obras e trabalhos eficientes que deixem viva sua chama e gosto pelo viver e pelo saber. Ele diz que o trabalho deve ser visto como um tipo de lazer e que o indivíduo que é capaz de fazer essa mistura entre trabalho-estudo-lazer sem nem mesmo perceber está praticando o ócio criativo [5].

    Além disso, acredito que o ócio criativo e o gosto pelo trabalho dado justamente por sua associação com o lazer certamente alavancará ainda mais aqueles indivíduos que os praticarem no século XXI. Com o excesso de informação de qualidade publicamente acessível -- principalmente através da internet -- aqueles indivíduos que tiverem o gosto pelo trabalho e correrem atrás de informação (brincando) em seus "tempos-livres" acabarão por conhecerem mais e mais sobre o mundo, tornando-se receptáculos e disseminadores ativos de informação e conhecimento. Eles farão isso porque terão gosto pelo assunto e se desenvolverão cada vez mais rapidamente em seus tópicos de trabalho-lazer, conhecendo cada vez mais-e-mais, o que certamente afetará em suas qualidades como profissional. O melhor profissional será sempre aquele que fará seu trabalho -- em grande medida -- como uma forma de satisfação e prazer. Aquele que o faz não vê hora para parar de trabalhar. Mas é preciso um trabalho aberto e livre, coisa que não parece possível ter em toda e qualquer profissão.

Vale a pena acompanhar as entrevistas do sociólogo Domenico de Masi ao programa Roda Viva, realizadas respectivamente nos anos de 1998 e 1999. Com uma clareza e uma força argumentativa impressionantes, Domenico defende suas idéias e esclarece as raízes de seu pensamento, falando ainda da questão do Brasil com relação ao ócio criativo e à sociedade pós-industrial. Clique aqui e aqui para acessar. As reportagens são muito boas e é possível comprar os DVDs com as versões completas da entrevista nas melhores livrarias. Faça bom proveito de seu ócio criativo!

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[1] Perfeitamente ilustrada no filme de Charles Chaplin, "Tempos modernos".
[2] É claro que o conceito demasiano de sociedade pós-industrial tem vários outros tipos de suporte teórico e empírico, porém quis passar aqui a idéia central associada justamente à forma como os indivíduos na sociedade trabalham. Creio que é justo dizer que a teoria pós-industrial de De Masi parte de um pressuposto baseado na forma como os indivíduos trabalham e -- daí, necessariamente -- a como eles gastam também seu tempo livre.
[3] Vale notar que Domenico não chega a teorizar sobre uma sociedade orientalizada como aquela que poderia ocupar o papel de destaque numa nova ordem mundial pós-industrial neste início de século XXI. As teorias do sociólogo parecem bastante pragmáticas e parecem prever a guinada da sociedade num futuro próximo. Tenho a impressão que uma guinada para o orientalismo só aconteceria/acontecerá depois de uma nova ordem pós-industrial talvez liderada pelo capitalismo social dos países em desenvolvimento; a ordem latina pregada por De Masi ou Lula. É possível talvez prever que um modelo oriental numa linha mais filosófica, do tipo budista ou hinduísta, provavelmente acontecerá no futuro de nossa sociedade e parece estar de certa forma na evolução do conceito de respeito e busca livre do transcendente. Neste momento, entretanto, parece-me que este modelo está por outro lado associado a um autoritarismo intransigente (como visto na China) e talvez De Masi pense que alguns desses problemas ainda precisam ser corrigidos antes que se cogite seriamente uma ordem mundial do tipo orientalizada. A força do capitalismo e da corrida armamentista tecnológica e científica não parece fundir bem com as idéias zen-budistas. Mas o que se dizer do futuro? Quão errados não podemos estar?
[4] É claro que houve problemas e corrupções. Ninguém em sã consciência defenderia qualquer político até o fim. O jogo da política envolve Sarneys e Malufs. Houve certamente, entretanto, uma melhora nas condições de vida da população mais necessitada devido à políticas públicas ativas do governo. Todos os órgãos públicos parecem ter saído fortificados do governo Lula e concursos públicos justos e bem produzidos pululam com boas oportunidades de salário e carreira profissional. As universidades e a educação superior saíram fortificadas e afastou-se o fantasma de suas privatizações que já começava a ser caso vencido no governo FHC. Hoje temos o Reuni, vagas para o Enem e o sistema de cotas sociais. Falta consertar a questão da educação básica; dentre outras questões urgentes. Enfim, demos um passo. Precisamos ainda de vários outros para "consertarmos" nosso país, pricipalmente na área da educação. Sem dúvida, entretanto, a questão de diminuir as desigualdades deve continuar como alvo das políticas públicas petistas.
[5] Todas as postagens deste blogue são frutos de momentos de ócio criativo e talvez exemplifiquem bem o conceito demasiano.

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Domingo, Setembro 27, 2009

Estamira



Estamira é um excelente documentário que trata da vida de uma mulher de 63 anos e que vive em um aterro sanitário próximo ao Rio de Janeiro há mais de vinte anos. Estamira parece ter uma visão bem clara e lógica dentro de sua cabeça que explica as agruras da sociedade moderna. Ela é eloquente no diálogo e não suporta argumentos crentes sobre Deus ou sobre a religião. Neta de alguém que a levou a um prostíbulo já aos 12 anos, Estamira foi casada duas vezes com homens que lhe foram infiéis; sendo mãe -- ao que parece -- de três filhos. Cansada de conviver com aqueles que chama de "espertos ao contrário", falsos e corruptores da sociedade moderna, Estamira parece ter se afastado de tudo isso e tentado uma vida mais simples. É impressionante verificar como as pessoas que vivem do lixão estão razoavelmente satisfeitas em viverem fora desta sociedade corrupta e incivilizada na qual vivemos. Ali eles ganham sua vida honestamente ao recolher e vender lixo, comem sobras do lixo da cidade e gostam de suas vidas. A filha mais nova de Estamira diz entender que a vida da mãe está ligada à vida do lixão.

Trocadilo é a palavra que Estamira usa para designar os falsos da sociedade, aqueles que querem apenas os bônus, aqueles que "tacam a pedra e escondem a mão". Sua revolta contra essa sociedade podre me parece justificada logicamente. É incrível perceber como Estamira por vezes segue caminhos lógicos precisos para chegar em determinada conclusão baseada em sua visão de mundo. Não há como discordar dela, por vezes. E sua eloquência verborrágica nos faz, definitivamente, refletir sobre nosso lugar ao mundo e nossa sociedade.

Filha de mãe que foi internada em hospício na década de 70, Estamira é diagnosticada psicótica pelos médicos. Esta senhora está sempre a falar de um mundo visível e um invisível e não parece restar dúvidas que ela apresenta alucinações auditivas e visuais. Estamira, entretanto, mostra sua sanidade e lucidez ao conseguir separar e entender, em grande medida, o que são seus delírios e o que é a vida real. O verdadeiro louco parece confundir delírio e realidade, o que não acontece com a protagonista deste excelente filme. Como ressaltado pelo diretor, esta mulher tem seu livre-arbítrio, sabe tomar suas decisões e sabe viver sua vida sozinha, ela mesma dirige-se ao centro de ajuda psicossocial da cidade e não precisa de ninguém para cuidar de si: evidência de sua mais perfeita sanidade. Ainda que em alguns pontos ela pareça ter idéias megalomaníacas, achando-se um tipo de centro do mundo e o pregadora de novas frontes de ideais aos seres humanos. Tanto isto é verdade que o diretor chegou a pensar no título: "Assim falou Estamira". O diretor diz ter depois recuado e preferido um título simples, o que de fato permite ao espectador tirar suas próprias conclusões.

Seguidora da divisão cartesiana entre res cogitans e res extensa, Estamira parece ter aquela visão tão comum de que a mente é separada do corpo e que, com a morte do corpo, a mente continuará viva de alguma forma. As dores que sente no corpo são como se alguém de outro lado -- eles, o trocadilo -- pudessem acionar um controle remoto para ferí-la. Mas ela é forte e ela resiste, ela sabe que pode resistir ao invés de se entregar; e ela persiste, ainda que a vida seja dura, dura, dura, dura.

Estamira é um grande exemplo de vida, pensamento e crítica social. Tendo uma certa educação, Estamira fala bem, entende como defender um argumento e revolta-se contra pensamentos que têm nos afastado da virtude, de acordo com sua filosofia racional. Quando chega, entretanto, ao ponto de explicar melhor detalhes de seu modo de pensar, Estamira fala noutro idioma, um idioma próprio e inventado, mas certamente rico em sentido. Ela não consegue colocar em palavras o que vê e sua interpretação particular dos fatos; as palavras do dicionário não cabem em seu discurso, ela precisa inventar novas palavras e conceitos para explicar sua visão de mundo tão clara. Acredito que esta visão de mundo de Estamira seja coerente dentro de si mesma, tanto quanto são as visões religiosas ou científicas do mundo. Estamira tem uma nova epistemologia, uma nova rede de conhecimento para explicar o mundo que precisa de palavras novas para ser relatada. Palavras que só ela entende, mas que podem fazer algum sentido real e interessante. Não me parecem apenas delírios.

Entender Estamira é, portanto, tentar entender o mundo de outro forma, doutro ponto de vista. Um ponto de vista que não vem dos dominantes, da direita ou da esquerda, de uma história de 2000 anos dominação cristã. Estamira reune tudo isso num vocabulário racional do povo, ela mata deus como Nietzsche e defende a igualdade de um comunismo ideal. Estamira está muito longe de ser uma pessoa ignorante que se esperaria encontrar num lixão. (E o mesmo vale para vários outros habitantes do lugar.) Com um conhecimento materialista e pragmático do mundo, associado a uma determinada espiritualidade mística de um mundo urbano, Estamira é um indivíduo único que, sabendo expor logicamente suas idéias, nos permite compreender a complexidade de interpretações possíveis da natureza e da sociedade. Estamira é uma teoria metafísica complexa e lógica; é um sistema lógico de crenças encarnado. Se fosse capaz de escrever tudo que vai dentro de si, talvez fosse capaz de criar um novo modelo de teologia da vida cotidiana.

Um documentário simplesmente imperdível.

Para saber mais, visite: http://www.estamira.com.br/

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Sábado, Setembro 19, 2009

Homo sapiens 1900, by Peter Cohen.

A história da eugenia no século XX.



Chegou às minhas mãos um filme excelente, produzido em 1998, sobre a história dos movimentos eugênicos no mundo. O filme de Peter Cohen, "Homo sapiens 1900" apresenta de forma impressionante como as ciências biológicas, ao longo do século XX, foram capazes de causar imensos problemas sociais ao serem mal interpretadas por políticos preconceituosos que acreditavam em idéias de eugenia e superioridade racial.

Segundo o dicionário Houaiss, a eugenia significa
eugenia:
■ substantivo feminino
Rubrica: medicina.
teoria que busca produzir uma seleção nas coletividades humanas, baseada em leis genéticas
Etimologia
lat.cien. eugenia 'aperfeiçoamento da espécie via seleção genética e controle da reprodução'; ver eu- e -genia


A obra, embora não pareça fazer nenhum julgamento ético explícito, informa como os movimentos de purificação de raças e a tentativa de criar um suposto ser humano perfeito causaram extremas reviravoltas sociais ao longo do século XX; principalmente em países como a Alemanha, Estados Unidos, Suécia e União Soviética. Em um certo momento do filme, uma propaganda de TV na Alemanha chega a exaltar Hitler como tendo sido o primeiro grande líder da humanidade a levar a sério a ""grandiosa"" idéia da higiene racial.

Algo que achei interessante no filme vem da relação entre os ideais de melhoria da raça com a teoria da evolução lamarckiana, publicada originalmente há exatamente 200 anos, no livro que abriu o mundo para o pensamento evolucionista: Philosophie Zoologique (Jean-Baptiste Lamarck, 1809). Os lamarckistas sociais acreditavam que as características adquiridas pelos seres humanos ao longo da vida seriam passadas para sua prole -- a teoria da herança dos caracteres adquiridos. Assim, a engenharia social e a educação poderiam produzir, no espaço de apenas uma geração, uma nova população de seres humanos superiores. A melhoria da raça aconteceria de forma rápida e veloz se ensinássemos na escola aquilo que "deveria ser ensinado". [1]

O filme mostra a ascensão do movimento eugênico na Alemanha no início do século XX -- e também na Suécia, URSS e EUA. Enquanto técnicas de eugenia negativa eram levadas a cabo através do assassinato de bebês defeituosos ou pela esterilização de humanos "menos aptos", técnicas de eugenia positiva tentavam reproduzir indivíduos supostamente mais aptos [2]. Nos EUA, leis para a esterilização passaram em diversos estados e causaram a esterilização de um enorme número de imigrantes. Rapidamente o movimento eugênico foi deturpado por pensamentos racistas e um suposto ideal de pureza do povo nórdico era vendido na Alemanha, Suécia e URSS. Na União Soviética comunista, o pesquisador Hermann Muller tenta convencer o governo a adotar um sistema reprodutivo de castas, sendo que o governo seria responsável por fazer inseminações artificiais dos melhores indivíduos em mulheres, desmoronando a idéia de família e sugerindo a criação de uma suposta utopia huxleyana; um admirável mundo novo. Concursos da melhor herança, do bebê e da criança perfeitos estavam sendo feitos em todo lugar. A idéia de "melhoria racial" é expandida entre os intelectuais e institutos para a pesquisa racial com intenções de engenharia social são abertos em diversos lugares do mundo. Estudar-se-ia "as melhores características", criar-se-ia formas de identificá-las e realizar-se-ia uma limpeza racial daqueles que estivessem mais distantes do padrão definido. (A idéia do lamarckismo social atrapalhou em demasiado a evolução científica da Rússia na metade do século XX e geneticistas conhecem bem a história de Lysenko e a proibição da Rússia aos estudos genéticos que acontecia por esta época; um atraso científico de grandes proporções para a ciência deste país.)

Movimentos eugênicos culminaram portanto na limpeza étnica ocorrida na Alemanha nazista e, como bem se sabe, em guerras de alcance mundial. Segundo Cohen, o conhecimento de biologia que tivemos ao longo do século XX nos proporcionou uma idéia de que poderíamos controlar e modificar o processo evolutivo "ao nosso favor". O problema era que os ideais de perfeição foram atrelados a julgamentos morais de indivíduos que se pensavam melhores do que outros. Na URSS, os cérebros dos maiores intelectuais eram estudados ao tentar encontrar uma suposta matéria física para a inteligência. Enquanto na Alemanha, os ideais eugênicos estavam mais ligados à força física; não intelectual. Essa pequena discrepância nos dá indícios de que uma suposta "virtude genética" pode se apresentar de diversas formas, bastando se seu conceito de virtude estaria associado a características físicas ou mentais. E é exatamente esta arbitrariedade de todo e qualquer sistema de privilégios que beneficie uns sobre outros que se torna também o argumento chave do filme, mostrando os horrores dos quais os humanos podem se auto-infligir em nome de ideais de "supremacia" ou a partir de nossa insistência em tentar controlar e modificar nossa própria natureza. Será o doutor Frankestein um grande gênio ou um grande vilão? Virtuoso ou desvirtuado?

Definitivamente: um filme a ser assistido e discutido.

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[1] Tudo isso acontecia devido à má educação científica da população em todo o mundo e pelo desconhecimento de que a herança dos caracteres adquiridos fosse uma teoria já refutada pelo evolucionista alemão August Weismann, por volta de 1890. Weismann havia cortado o rabo de milhares de ratos e verificado que nenhuma prole oriunda deles havia dado sinais de ter diminuído o tamanho do rabo. Logo, havia uma distinção entre células somáticas e germinativas e o que acontecia ao corpo do indivíduo adulto não passava para as próximas gerações. O lamarckismo enquanto herança dos caracteres adquiridos já estava morto enquanto era utilizado para o extermínio social.

O evolucionista August Weismann que foi o primeiro a refutar a teoria lamarckiana da herança dos caracteres adquiridos -- da qual até mesmo Darwin titubeava. Ele criou a teoria do germoplasma, onde havia a separação entre células somáticas e germinativas e apenas modificações nessas últimas seriam herdáveis.


[2] Foi interessante notar como a realização da eugenia positiva, ou seja, a tentativa de reprodução dos indivíduos mais aptos, chocou-se com a moral burguesa conservadora à época. Por isso, o extermínio dos menos aptos através da eugenia negativa foi realizada com mais eficácia e sem dilemas morais. A reprodução dos indivíduos mais aptos através eugenia positiva fazia com que as mulheres e homens supostamente melhores biologicamente devessem reproduzir entre si. E assim subjulgava a escolha do parceiro na reprodução e faria com que mulheres de classe alta devessem fazer sexo com indivíduos em especial para a melhoria da raça. Esse sexo para a melhoria da raça nunca deu certo e certos centros para a eugenia positiva eram habitados por moças das altas classes que haviam engravidado sem que fossem casadas... Evitar-se-ia, assim, o aborto de bebês aptos e de boa estirpe.

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Segunda-feira, Abril 06, 2009

The following story, by Cees Nooteboom

"A estória seguinte" ou "A próxima estória" (The following story, na tradução em inglês) é um livro do autor holandês Cees Nooteboom.


"A próxima estória" é um livro escrito em 1991 pelo holandês Cees Nooteboom, autor sempre cotado como candidato a nobel de literatura. A obra conta a estória de vida de um professor de línguas abordando em pano de fundo questões metafísicas e pós-modernas, onde o tempo não segue uma vertente exatamente linear. Entremeada à estória principal está a história do filósofo Sócrates, que se confunde com a vida do narrador-protagonista. Repleto de pensamentos genéricos, impressões sentimentais dos personagens sucedem-se numa atmosfera de non-sense psicológico que incitam à reflexão.



Apreciação geral

É um dos melhores livros que li ultimamente e, se tive dificuldades em lê-lo por inteiro -- embora ele tenha apenas 100 páginas --, foi porque o livro inspirava-me constantemente. Em várias vezes em que parei meus afazeres para ter o prazer de ler esta obra de Nooteboom, não fui capaz de avançar sequer uma ou duas páginas, posto que sua maneira de escrever me inspirava e então eu me via obrigado a interromper a leitura para escrever alguma coisa. Mais do que tudo, não foi apenas o conteúdo do livro que me inspirou mas um tipo de "non-sense psicológico", como o próprio autor descreve, em que o livro é escrito e que identifico como um estilo de escrita similar ao meu (veja aqui ou aqui), certamente melhorado. É impossível negar que o autor não tenha um estilo próprio de escrita, embora seja difícil descrevê-lo com precisão. A obra conta a vida de um professor de literatura (grego e latim) que acorda um dia num quarto em Lisboa tendo dormido em Amsterdã. E esse fato inusitado trás a ele um sem-número de lembranças e reflexões que vão transformando o livro em um tipo de auto-biografia reflexiva, apoiada num texto repleto de sinceridade argumentativa e percepções sentimentais profundas sobre o mundo e a experiência humana, em meio à realidade do cotidiano. Em uma palavra: pós-moderno.

O romance, per se

Mais especificamente, o livro é escrito em primeira pessoa e trata da história deste professor e quatro personagens à sua volta. Herman Mussert é professor de literatura em um colégio onde há também dois outros professores, que mantém um relacionamento amoroso. Estes professores são Maria Zeinstra e Arendt Herst. O quarto personagem consiste na aluna chamada Lisa d'India que é inteligente e linda, interessada por todas as disciplinas e cuja qual todas as pessoas na escola são apaixonadas -- exceto o protagonista, como ele faz questão de frisar. Mas diz ainda: "Toda linha de Latim que Lisa d'India tomava para o estudo começa a florir, viver, correr como um rio. Ela era um milagre e, embora eu ainda não saiba porque estou aqui, sei que isso tem alguma coisa a ver com ela." Embora diga que seu imperativo categórico próprio considere apaixonar-se algo proibido, Herman termina dizendo que se sente mais uma vez como fazendo parte do mundo das pessoas normais, posto que está apaixonado... por Maria Zeinstra. Para sua sorte, Lisa d'India tem um affair com seu professor de educação física, justamente Arendt Herst, o que deixa a comprometida Maria Zeinstra razoavelmente livre para também ter um outro relacionamento furtivo. Jamais fica clara na obra se Zeinstra realmente gosta dele e o ama "Vá perguntar isso para sua mãe!", ela diz em certa ocasião, ou se o utiliza de certa forma a se vingar do marido [1]. E assim, os dois casais vivem as escondidas na escola e é com Maria Z que o autor se encontra um dia, num quarto em Lisboa, enquanto Herst tem outros afazeres. Ao longo do livro, o narrador vai nos contando a estória dessas suas paixões enquanto mistura um pouco de assuntos dados em suas aulas sobre línguas, literatura e mitologia. "O mundo é uma referência cruzada sem fim" e à medida que vai contando sua hi(e)stória, Herman toma para si o alter-ego do grego Sócrates. E assim o relato avança até o momento em que ele dará sua última aula antes de se aposentar. Esta última aula é dada como uma metáfora de sua própria trajetória de vida, misturada com a história da morte de Sócrates, tal como relatada por Platão. O narrador comenta, sem qualquer modéstia: "(...) eu podia, e eu o fiz aquele dia, fazer Sócrates morrer com uma dignidade que eles [os alunos] jamais esqueceriam por mais longa (ou curta) que fossem suas vidas." Ao fim desta última aula, Lisa d'India está chorando pelo professor que parte. Ela permanece na sala ao final e uma discussão se inicia, discussão esta que começa pela imortalidade da alma -- outro tema recorrente no livro -- e termina com discussões sobre seus relacionamentos. Discussões estas que são interrompidas quando Maria Zeinstra adentra o recinto. Lisa então se vai, deixando para trás um livro no qual a Sra Zeinstra encontra uma carta: "'Você pode escolher', ela diz, 'ou você fica com a carta, e neste caso você nunca mais vai me ver, não importa o que esteja escrito. Ou então eu a parto agora mesmo em mil pedacinhos.'" E por mais culto que fosse nosso protagonista, ele percebe: "Nenhum livro que eu tenha lido me preparou para uma situação como esta." Enfim, ele permite que ela corte a carta em pedacinhos e, a seguir, ela parece tomar a decisão de largar definitivamente Herst para ficar o protagonista. "'A gente vai pra sua casa mais tarde', ela disse, 'e então eu vou ficar' (...) Ela não estava sugerindo, ela estava me avisando." No fim das contas, o autor volta a escola no dia seguinte apenas para encontrar Arendt Herst cheirando licor e com a barba por fazer. O professor de educação física o agride, gerando uma confusão na escola, e parte num carro com Lisa. O carro colide, Lisa morre, enquanto Arendt quebra as pernas. Depois de todo o acontecido, o autor confessa: "Não, eu nunca mais ouvi falar de Maria Zeinstra e de fato, Herst e eu fomos despedidos, e o Sr e Sra Arendt Herst agora ensinam em Austin, Texas." Depois disso, o protagonista nunca mais deu aulas e passou a escrever guias turísticos que muitos holandeses acham indispensáveis para suas viagens ao estrangeiro [2]. Em seguida, ele pega um cruzeiro transatlântico onde encontra personagens interessantes, com quem se identifica, a contarem suas estórias de vida. Ele jamais lhes conta sua história, deixando-a apenas para nós leitores ficarmos sabendo.


O poeta, novelista e escritor de guias de viagem holandês, Cees Nooteboom. Nascido em Haia, 1933, tem vários livros publicados e é vencedor de inúmeros prêmios europeus de literatura. Em "A história seguinte" o autor usa e abusa de conceitos pós-estruturalistas e desconstrutivistas, gerando uma atmosfera psicológica onde a compreensão é formada de forma difusa, porém sensível e, finalmente, brilhante.



A obra, aspecto geral

A obra se inicia com o autor refletindo sobre sua identidade num quarto de hotel em Lisboa, há alusões a lugares e ruas e palavras em português. Há dois capítulos: no primeiro o autor discorre sobre Lisboa e Amsterdã e conta a maior parte de sua vida no colégio [3]. Nesta primeira parte há excessivas alusões à mitologia, clássicos da literatura, filosofia e interessantes incursões livres sobre linguagens e ensino. Tais assuntos são chamados ao texto quando em meio à estória e normalmente são interessantes e de digestão leve. O capítulo pode ser todo entendido como "reminiscências esparsas e despropositadas" da vida de um culto professor de letras, em fins de carreira. Via de regra, o autor está sempre a defender um entendimento do mundo de forma poética e literária, contra um tipo de compreensão excessivamente científica da realidade, algo que tira Maria Zeinstra do sério.

Já no segundo capítulo, o narrador está num navio, um transatlântico que parte de Belém (Portugal) e chega em Belém (Brasil), relembrando algo cíclico, como um eterno retorno -- como aponta um dos personagens desta parte. Neste navio, embora esteja claro que estejam presentes um enorme número de pessoas, há apenas um pequeno grupo delas que de certa forma inexplicável se identificam, permanecendo juntas. Não há sequer alusões a outros membros da embarcação. O narrador revela: "Qualquer um acostumado a manter uma classe com trinta alunos sob controle aprendeu a ter uma percepção rápida. Um garoto, dois homens velhos, dois homens da minha própria idade. A mulher ali parada (...) Sabíamos de cara que pertencíamos a um mesmo grupo." E então o livro passa a contar sobre as estórias de vida dessas pessoas e sobre detalhes da viagem, sempre sobre uma aura de non-sense psicológico e onde o autor apresenta lembranças e pensamentos esparsos e não lógica ou temporalmente ordenados sobre sua própria vida. A parte final do romance já descrito acontece em meio a esta viagem de barco. "Meus sonhos sempre tiveram uma semelhança absurda com a realidade, como se mesmo em meus sonhos eu não pudesse criar nada de novo, mas agora as coisas aconteciam ao inverso, agora era minha vida que parecia um sonho."

"E toda noite (...) um de nós contaria sua estória, e eu os conheceria e não conheceria, e cada uma dessas estórias seria o fim de uma outra, ainda maior." O garoto e o padre e o espanhol e o acadêmico chinês contaram suas estórias, dia após dia. O livro termina bem ambíguo, talvez com a morte do autor, talvez com o navio ancorando talvez no Brasil, com o sujeito retornando à sua cama e fazendo uma alusão de que tudo não passou de um sonho. Ainda não sei exatamente qual a conclusão final a que cheguei e outras críticas que li na internet deixaram-me ainda mais na dúvida. Para realmente sabermos teríamos que esperar uma próxima -- e ainda maior -- estória.

Citações interessantes

"A tecnologia significa pouco para mim (...) mas algumas máquinas tem uma beleza nelas próprias, ainda que eu jamais vá admitir isso em público" pag 13
Aqui vem a idéia de que o poeta é um sujeito que não está ligado na tecnologia e ama o lirismo do mundo, longe do tecnologismo.

"Isso é outra coisa que aprendi: quando as mulheres querem alguma coisa, elas são capazes de mobilizar forças que homens, apesar de sua conhecida força de vontade, não são capazes de igualar." pag 20
Acredito que aqui o autor esteja fazendo um elogio à mulher e colocando-a antiteticamente como o "Outro" ou algo que ajuda a definir sua própria identidade masculina.

No primeiro capítulo há a frase:
"Estou feliz que os outros tenham ido embora e que eu precise contar apenas a você a minha estória, ainda que você mesmo esteja nela." pag 25
Esta frase é bastante interessante e ela pode apenas ser compreendida depois que o livro tenha sido lido por inteiro, ou seja, mostra que ele não tem uma ordem cronológica perfeita ou precisamente orientada. [4] A estória de Herman não foi contada aos outros viajantes do navio e ele está feliz que eles tenham ido embora para poder agora contar-nos sua estória. A idéia de fazermos parte da estória muito provavelmente representa o fato apontado pelos descontrutivistas e pela crítica pós-estruturalista de que é o leitor que dá sentido a -- e portanto, participa ativamente de -- qualquer narrativa. Frequentemente o alter-ego de Nooteboom dialoga com o leitor tratando-o como "você" e ao longo da narrativa temos de fato uma ligeira impressão de fazermos parte da obra. Simplesmente brilhante!

Na mesma página, logo abaixo, mais um tipo de paradoxo que caracteriza a literatura contemporânea e que é facilmente analisável considerando as teorias literárias do fim do século XX:
"Somente a palavra escrita existe, tudo que alguém precisa fazer por si mesmo é sem forma, sujeito à contingência sem rima ou razão. Isso gasta muito tempo. E se termina mal, o mestre não está certo, e não há como cruzar as coisas. Por isso escreva, Sócrates! Mas não, não ele, e não eu também." pag 25
Sabe-se muito bem que o filósofo Sócrates não deixou nenhum tipo de conhecimento escrito e tudo que se conhece sobre vem dos escritos principalmente de Platão e outros gregos da época. O autor aqui, a meu ver, mistura prosa com poesia, desiste claramente de produzir um sentido simples e claro através de sua frase e termina escrevendo seu relato e dizendo que não escreverá, um paradoxo claro. Eis aí talvez um dos pontos altos da literatura moderna, segundo criticismo padrão.

Do narrador à Lisa d'India:
"O Latim é a essência, o Francês a idéia, Espanhol o fogo, Italiano o ar (claro que eu disse éter), Catalão a terra, e o Português é a água."
E ela responde:
"E sobre a água e essas coisas, isso me soa um pouco gratuito, não? Não muito científico, de qualquer forma." pag 28
Nesta obra cabe sempre às mulheres atiçar no protagonista e narrador o senso da ordem e do científico. O livro contém uma boa caracterização ideológica das personagens femininas e o autor sempre se apresenta a elas como sendo um ser mais lírico e sonhador do que estas. Aqui pode-se talvez dizer que o papel tradicional da mulher como frágil e sonhadora tenha sido invertido. Outra vez: pós-moderno.

Diálogo entre o autor e Maria Zeinstra:
"(...) eu perguntei: 'Cê sabe que horas são?'
Ela apontou o grande relógio emoldurado a madeira na parede oposta, e sua face imediatamente assumiu a expressão irritada daqueles que detestam ver seu pacto sagrado com o universo sendo quebrado."
pag 30
Momento em que Maria Zeinstra foi mais lírica do que o narrador. Ela irrita-se por ter sido ligada novamente ao mundo da correria e dos relógios mostrando horas.

Do autor para Maria Zeinstra, quando ela utiliza uma palavra antes desconhecida pelo protagonista -- shuttered -- para chamar a atenção de um aluno mal comportado. O narrador reflete:
"Shuttered. Mas que palavra! Ainda mais quando dita desse jeito tipico do norte da Holanda. As luzes [da sala de aula] se apagaram de novo [para que o seminário continuasse], mas eu sabia então que aquela vaga emoção que ela já havia invocado em mim havia sido repentinamente promovida a amor."
"Esta mulher está me ensinando novas palavras! Não há dúvidas sobre isso, eu a amo."
pag 35
Amar envolve admirar o outro de certa forma.

"A vida é um monte de merda que continua aumentando e aumentando, e a gente precisa carregá-lo por aí conosco até o fim." pag 38

"Ela fez uma pausa. De repente ela parecia ter quatorze anos. 'Você acredita em vida após a morte?'
'Não', eu respondi sinceramente. Eu não estou nem mesmo certo de que existimos, deu vontade de dizer, e então eu fui e disse.
'Ah, sai dessa.' E isso soou muito norte-holandês. Mas de repente ela me pegou pelas lapelas.
'Vamos tomar um drink.'"
pag 43
Destaque em negrito feito por mim.

Algumas discussões finais

Com relação à crítica psico-analítica do texto, é interessante notar como às vezes a personagem de Zeinstra confunde-se com a personagem de Lisa d'India, ao que parece, na memória difusa do narrador. A idéia de que sua vida agora parecia um sonho é perfeitamente compreensível pelo surrealismo do texto.

É também interessante notar que mesmo tendo convivido com Zeinstra, Lisa e Herst há tanto tempo e -- tendo partido em viagem transatlântica sabe-se lá quanto tempo depois de tudo ter acontecido --, a memória do que viveu e as coisas que pensa quando está aqui ou ali estão sempre voltando a tratar dessas pessoas que foram importantes em sua vida. Referências cruzadas da biografia de um personagem inexistente. Isso leva-me também à reflexão de que as pessoas com as quais vivemos jamais de fato morrem ou desaparecem de nossas vidas, posto que sempre há algo que nos irá fazer lembrar delas de alguma forma. Elas estarão participando de nossas vidas. A nossa própria vida não é nada que senão uma referência indireta à vida daqueles que amamos e que representam muito para nós.

I can't stand daylight.

===

[1] Frase encaixada depois de ler uma outra crítica da obra, por Scott Esposito. Isso fica claro no livro e eu não havia comentado nesta postagem.
[2] Como o verdadeiro autor também escreve guias, resta a dúvida sobre o quanto do relato não será auto-biográfico. E pensando literariamente: quais os limites entre autor e personagem em uma obra explicitamente auto-biográfica ou outra que não se pretende assim. Qual a parcela de auto-biografia de todo o relato? Alguma vez conseguiremos ser ainda que um pouco imparciais ao escrever um livro, ou principalmente, ao escrever-mo-los em primeira pessoa? Por que é mais difícil escrever uma obra de ficção em primeira pessoa do que em terceira? Para nos dar a precisa imagem do personagem, não precisa ser o autor, um ator? Não precisará transformar-se no personagem para se fazer crível? (Sobre este assunto dá-me agora um pouco de medo do João Ubaldo à época em que ele escreveu "O diário do farol")
[3] Outra crítica diz que as duas partes do livro consistem provavelmente nos dois últimos segundos de vida do narrador e que isso soa plausível. É fato que a questão da morte está relacionada ao fim do livro e que às vezes se tenha a impressão de que a garota que o espera esteja de um "outro lado da vida". Mas não penso que isso fique claro e acho que a teoria dos dois segundos é assaz especulativa e não me transparece em absoluto na leitura da obra. De fato, é uma discussão irrelevante.
[4] Scott Esposito, em sua crítica encontrada em [1] diz exatamente que o livro deve ser lido e relido. Confesso que comecei a escrever esta postagem quando havia terminado de ler o livro, mas cheguei praticamente a relê-lo inteiro para terminá-la (enquanto estive de férias na Tunísia) e ainda voltei nele algumas vezes para tentar clarear melhor esta postagem.

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Terça-feira, Março 24, 2009

Hélène Cixous e a crítica literária feminista

Já faz algum tempo que estou lendo -- dentre diversos outros -- um livro entitulado "Beginning theory: an introduction to literary and cultural theory" [1]. Este ótimo livro de introdução à teoria crítica e literária é escrito por Peter Barry -- professor de Inglês e Literatura na University of Wales (UK). Basicamente é uma obra de estudo de literatura que apresenta as principais correntes da crítica literária de uma forma clara e direta, bastante didática. Tenho aprendido muito.

Beginning Theory, de Peter Barry: excelente livro introdutório sobre teoria e crítica literária e cultural.


Ainda voltarei aqui oportunamente para comentar melhor sobre este livro, porém o que me trouxe a esta postagem foi a leitura do capítulo sobre a crítica feminista na literatura. Ao ler o Capítulo 6 do livro de Barry, fiquei interessado e fui procurar saber mais, o que me levou aos textos de algumas escritoras feministas que encontrei na internet e em outra obra sobre estudos literários [2]. Farei aqui, portanto, uma pequena introdução sobre a crítica literária feminista. A seguir, citarei e comentarei alguns trechos do texto "Conversations"[3] que tive o imenso prazer de ler -- texto este originado a partir de uma palestra ministrada pela da escritora, poeta e crítica literária algeriana Hélène Cixous.

A crítica literária feminista

Resumindo tanto quanto possível um tema assim tão amplo, poderia dizer que a crítica feminista basicamente consiste na argumentação de que a grande maioria dos grandes textos da cultura ocidental foram escritos por homens e apresentam uma visão enviesada do mundo a partir de um ponto de vista masculino. Além disso, tais textos célebres normalmente apresentam a mulher-como-objeto ou a mulher-como-o-outro. Josephine Donovan faz uma crítica severa: "se refletirmos [sobre o papel da mulher na literatura e cinema] percebemos que a mulher é usada esteticamente como se tivesse o mesmo nível de importância moral que a decoração vermelha dos arredores..." [4]. Segundo a autora, as mulheres são apresentadas nas grandes obras literárias -- como no Fausto, de Goethe -- apenas como veículos para o crescimento ou salvação do protagonista masculino; e suas idéias são apresentadas apenas quando elas se relacionam, servem ou se opõem aos interesses do protagonista. Assim, a crítica feminista busca compreender a relação da mulher na literatura tanto quando escritora -- ao resgatar textos de escritoras passadas -- como quando leitora, ao identificar exatamente este machismo presente nos textos literários [5]. Outra discussão bastante comum entre os círculos feministas consiste na distinção entre os termos feminista (posição política), fêmea (questão biológica) e feminino (conjunto culturalmente pré-definido de características) [1].

Outra questão importante na crítica feminista está relacionada à questão do essencialismo. Será que há algo coisa dentro da "alma feminina" que lhe é particular e que, dessa forma, só uma mulher poderia escrever. O essencialista diria que sim e diriam que existe algo que os críticos franceses chamam de uma écriture feminine. Com relação a este aspecto, Hélène Cixous argumenta que a linguagem é uma tradução e que ela fala através do nosso corpo [3]. Como os corpos das mulheres são diferentes dos corpos masculinos, logo sua literatura também será diferente. É uma questão discutível o quanto os homens podem adentrar esse meio, e vice-versa. Essa questão sobre o essencialismo me leva também a pensar numa possível área da crítica literária que poderia ser batizada de crítica biológica ou crítica darwinista. Biologicamente falando, a diferença entre homens e mulheres existe e -- embora existam certamente exceções e interseções -- há de se pensar que as mulheres escreverão de uma forma mais feminina enquanto homens terão uma forma masculina de escrita. É provável que certos homens sejam capazes de escrever como mulheres e vice-versa, mas acredito que haverá diferença notável talvez em forma e conteúdo -- o que faz de mim um essencialista e, como biólogo, creio que não poderia pensar diferente.

Hélène Cixous é professora, escritora, poeta, ensaista, filósofa e crítica literária. Nascida na Algéria, em 1937, escreve em francês. Seus trabalhos são normalmente vistos como relacionados aos de Jacques Derrida, célebre defensor do movimento pós-estruturalista e desconstrutivista.



Dessa forma é interessante notar o importante papel da crítica literária feminista ao apontar com clareza as bases ideológicas de textos clássicos que seriam teoricamente neutros, com relação ao gênero. Assim, identifica-se a extensão do machismo e da cultura patriarcal em obras literárias/culturais e sabe-se mais sobre o homem e sobre a evolução de nossa cultura.

Finalmente, vale comentar aqui sobre a crítica lésbica/gay que realiza uma crítica literária semelhante à crítica feminista. No lugar entretanto onde a crítica feminista cuida dos desvios do texto com relação ao gênero, a crítica lésbica/gay cuida da questão da sexualidade, identificando como os textos célebres da cultura ocidental estão enviesados em prol de um comportamento e visão heterossexuais -- é disso que trata o Capítulo 7 do livro de Barry.

Hélène Cixous

Foi portanto a partir do livro de Barry que cheguei ao texto "Conversations", de Hélène Cixous. Nesta obra, a autora fala de uma forma que considero bastante feminina e sensível sobre as características de um texto literário. Este é um texto, por exemplo, que eu acharia difícil ter sido escrito por um homem, posto que mostra tanto extrema razão quanto a mais pura sensibilidade. Cito-a [3] em tradução livre:

"(...) [Um texto] sempre diz algo além do que ele pretende dizer. Um texto é sempre mais do que o autor deseja expressar ou acredita que ele/a expressa."

Aqui a autora mostra uma opinião partilhada pelos estruturalistas e desconstrutivistas sobre a mensagem contida em qualquer texto.

"A maldição bíblica [falando da Torre de Babel] diria que a multiplicidade de linguagens presta ao homem um desserviço, mas eu vejo como uma benção estar no meio de tantos idiomas. Porque diferentes línguas, dizem diferentes coisas. E nossa coletividade múltipla faz tais diferenças -- um enriquecimento infinito -- aparentes para nós."

Compartilho totalmente a opinião da autora e estou sempre querendo aprender mais e mais línguas para me enriquecer cada vez mais. Nossas línguas são expressões das mais puras de nossas culturas e compreender uma língua e a forma como ela é utilizada é participar de uma experiência cultural humana. Saber idiomas é conhecer povos e formas de pensamento diferentes. Quanto mais línguas se sabe, mais se sabe sobre o ser humano.

"Tudo começa com o amor. Se trabalhamos com um texto que não amamos, estamos indo automaticamente na direção errada. (...) Eu escolho trabalhar com textos que 'me tocam'."

"[Quando estudamos um texto] Não estamos procurando pelo autor (...), estamos procurando o segredo da criação, o mesmo processo de criação que cada um de nós está constantemente envolvido no processo de nossas vidas."

"Ainda que nossos textos carreguem em seus corpos, em suas carnes, as marcas do gênero que nos foi dado ao nascimento, ele necessariamente situa-se além de tais questões. Eu não acredito que os homens e as mulheres sejam idênticos. O fato de que homens e mulheres tenham toda a humanidade em comum e que ao mesmo tempo haja algo ligeiramente diferente, eu considero uma benção. Nossos corpos têm a ver com a forma na qual experimentamos o prazer, com nossas experiências corporais, que não são as mesmas. A forma como fazemos amor -- por que é diferente -- produz diferentes sensações e recordações. E essas coisas são passadas através dos textos. Eu não entendo o que as pessoas dizem quando tentam me convencer que tais diferenças não existem."

Aqui a questão relacionada ao essencialismo do feminino é abordada clara e diretamente. Posto desta forma, é praticamente impossível discordar da argumentação.

"Quando leio, o que me move é tentar encontrar uma nova imagem, uma nova forma de dizer a mais antiga e eterna das idéias. É a novidade na expressão que é extraordinária e que valoriza a incrível riqueza da imaginação humana."

Aqui eu acrescentaria que, embora possa concordar que a forma de dizer é extremamente importante, acredito que também é importante a articulação de novas idéias e acho que idéias novas surgem a todo instante. Entretanto está claro que uma nova idéia precisa de um meio eficiente e acessível para ser passada aos outros seres humanos. A forma, a lógica e o desenvolvimento de um texto são bastante importantes para a compreensão e para que sejamos tocados por sua beleza estética, indescritível em palavras. Como é o caso deste texto inspirador de Madame Cixous.

== Referências bibliográficas ==

[1] Barry, Peter. Beginning theory: an introduction to literary and cultural theory. 2nd ed (2002). Manchester University Press.
[2] Newton, K.M. (ed) Twentieth-century Literary Theory: A reader. 2nd edition. Palgrave Macmillan.
[3] Cixous, Hélène. Conversations. In: Newton, KM (1997). Reprinte from Writing Differences: readings from the seminar of Hélène Cixous, ed Susan Sellers (milton Keynes, 1988), pp. 142-54.
[4] Donovan, Josephine. Beyond the net: Feminist cristicism as moral criticism. In: Newton, KM (1997). Reprinted from Dever Quarterly, 17 (1983), 40-53.
[5] Showalter, Elaine. Towards a feminist poetics. In: Newton, KM (1997). Reprinted from Women writing and writing about women, Ed. Mary Jacobus (London, 1979), pp.25-40.

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Sábado, Março 07, 2009

Filosofia, um guia para a felicidade -- Alain de Botton

Venho também de assistir uma série de documentários um tanto quanto interessantes sobre algo que gosto de chamar divulgação filosófica, como um paralelo à de certa forma já aclamada divulgação científica.


Elaborado pelo escritor e produtor de televisão inglês Alain de Botton, o documentário Filosofia -- Um guia para a felicidade (no original inglês, Philosophy, a guide to happiness) consiste em um tipo de apresentação e divulgação de idéias dos grandes filósofos ocidentais para um público leigo.


Em cada uma das seis partes, o produtor aborda o pensamento de algum filósofo escolhido a dedo ao focar em determinado aspecto dentro de sua corrente de pensamento. Foram assim escolhidos aspectos que podem influenciar diretamente na mudança de determinadas atitudes cotidianas de cada um. A idéia geral do documentário é simplesmente mostrar como a filosofia pode servir de base para que as pessoas passem a questionar certos valores sociais rigidamente estabelecidos e, assim, serem capazes de suportar melhor as agruras do dia-a-dia -- das quais todos estamos sujeitos. Botton então apresenta parte da história de vida um filósofo diferente em cada episódio, ressaltando a idéia que deseja apresentar. Por vezes, ele também apresenta casos de indivíduos "normais" (ingleses) cuja vida foi ou pode vir a ser afetada diretamente por tais idéias. Os seis episódios tratam de:
  1. Sócrates e a auto-confiança: não seja um maria-vai-com-as-outras, apresente e acredite em suas idéias! (****)
  2. Epicuro e a felicidade: a felicidade é algo que vai muito longe do dinheiro. (**)
  3. Seneca e a raiva: enraivecer-se não adianta nada, é melhor encarar a vida com calma e fazer o que for preciso para melhorá-la. (***)
  4. Montaigne e a auto-estima: não devemos acreditar nos valores dos outros e sim criarmos os nossos próprios. (****)
  5. Schopenhauer e o amor: o amor vem do instinto reprodutivo de nossa espécie. (**)
  6. Nietszche e o sofrimento: devemos utilizar nossas frustrações como desafios a serem superados. Não afoguemos as mágoas, utilizemos a força da infelicidade para nos jogar à frente. (***)
    * As estrelas se referem à minha apreciação pessoal sobre cada um dos episódios.

No primeiro documentário da série, Botton remonta aos primórdios da filosofia ocidental com o grego Sócrates e reforça o argumento socrático de que as pessoas devem confiar naquilo que pensam ao invés de seguirem os pensamentos alheios como que num rebanho. A meu ver, este é um dos mais inspiradores documentários da série, uma vez que vai contra a cultura de massas que é talvez o grande problema da sociedade contemporânea [1]. Não obstante, ouso discordar aqui tanto de Sócrates quanto de Botton quando eles comparam a cultura de massas com a democracia, fazendo assim uma crítica ao movimento democrático por pensarem-no massificado. Sou um defensor ardoroso da democracia e acho que ela é o melhor sistema de governo possível [2], ainda que não seja perfeito. Sei que é possível ter uma democracia funcionante sem que ela herde os problemas existentes nas culturas de massas [3].

Alain de Botton é historiador pela universidade de Cambrige (UK) e mestre em filosofia, além de escritor e produtor de programas de TV. A crítica discreta que faz ao diretor de um dos Colleges de Cambridge é simplesmente admirável: não é um título numa universidade que faz de alguém uma pessoa virtuosa (episódio 4 sobre Montaigne).


Embora alguns dos documentários tenham um formato excessivamente popular e cheirem à cultura do entretenimento -- não aprofundando ou enfatizando suficientemente nas idéias filosóficos e em suas implicações sociais --, há também episódios bastante iluminadores e muito bem desenvolvidos. Sem dúvida, o exercício de Botton é bastante válido e a série vale a pena ser vista por todos. Principalmente porque esta é a primeira vez que me deparo com uma tentativa séria de divulgação filosófica para fazer acordar as massas e isto é, sem dúvida, algo que precisa ser urgentemente incentivado pelos governos, em todo o mundo.

E, assim, por introduzir e despertar o gosto do público (você e eu também incluídos) pela filosofia e pelos filósofos narrados, esta série de documentários divertidos, leves e agradáveis vale a pena ser assistida. Um excelente trabalho de divulgação filosófica; sugiro aos professores de todo o Brasil para apresentarem-no como recurso didático para estimular alunos do ensino fundamental e médio. Boa diversão (filosófica)!

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NOTAS:


[1] Percebe-se ainda que a cultura de massas já era um problema até na Atenas pré Jesus Cristo e desde aquela época já existiam os que se levantam contra ela.
[2] Aqui falo da democracia como melhor forma de governo num sentido realístico e pragmático. O melhor governo possível seria mesmo nenhum governo. Mas esta, infelizmente, não me parece ser uma alternativa viável. Consigo vislumbrar o anarquismo como forma de governo apenas numa sociedade com indivíduos responsáveis socialmente e altamente educados. Desta forma, estamos ainda muito longe de chegarmos a este ponto.
[3] Vide governos modernos na Europa.

PS: Versões em inglês existem no YouTube.

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Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

This is your brain on music, de Daniel Levitin

"Seu cérebro musical" -- em tradução livre --, é o livro do músico e cientista cognitivo Daniel Levitin. Nesta obra, o autor descreve as bases neurológicas da nossa apreciação musical ao discorrer sobre os mais modernos estudos feitos sobre a relação entre o cérebro/mente e a música. Recomendado para qualquer interessado em música ou cognição -- e ainda duplamente recomendado para aqueles que, assim como eu, possuem ambos os interesses.

"This is your brain on music", de Daniel Levitin. Excelente livro ligando teorias cognitivas e neurologia ao nosso gosto e apreciação e técnica musical. Recomendando para interessados por música, cognição e ciência.
* "Seu cérebro musical" infelizmente ainda não tem tradução para o português brasileiro.


O autor inicia a obra a descrever alguns fundamentos básicos da música ocidental para o não-iniciado. O livro está sempre retornando e ensinando teoria musical ao longo de suas descrições sobre como se dá a apreciação musical pelos seres humanos. É interessante observar que o autor é um apreciador também da história do rock and roll e, portanto, sempre apresenta exemplos que remontam à músicas e bandas famosas, conhecidas por um grande público -- tornando seu argumento claro e facilmente acessível. Ao analisar canções ou a forma de tocar de bandas célebres, evidencia o que uma ou outra elas têm de especial e que as faz particularmente atrativas a um grande público. Com um conhecimento interessante sobre a história da música ocidental, Levitin chega a afirmar que: "O rock and roll pode ser encarado com a etapa final de um revolução musical que durou milênios e que deu às quartas e quintas perfeitas uma proeminência em música que havia sido dada anteriormente apenas ao intervalo de oitava."

Outro conceito importante que apreendi na leitura de "Seu cérebro musical" vem do fato de que nosso cérebro evoluiu de certa maneira a apresentar algum tipo de expectativa musical. Tal expectativa está relacionada à ordem que as notas soam em uma sequência harmônica e é interessante notar como o nosso "sistema sensorial pode restaurar informações faltantes que podem nos ajudar a tomar decisões rápidas em situações de risco". Da mesma forma como na figura abaixo temos uma ilusão de óptica ao vermos um triângulo que não está desenhado, temos também ilusões auditivas -- e quando uma sequência harmônica é tocada sem uma nota, nosso cérebro automaticamente a adiciona sem que nos demos conta disso, a completar a nota faltante e criar uma alucinação sonora. E é exatamente na modulação desta expectativa -- indo às vezes à favor e às vezes contra ela -- que identificamos os grandes compositores a trabalharem com os sons e, por conseguinte, com nossas emoções ao escutá-las. Levitin postula claramente: "A formação e então a manipulação de expectativas está no coração da música e é realizada de um número incontável de maneiras."


De forma a criar uma ilusão de óptica, nosso cérebro nos permite ver um triângulo, na figura, que não existe. Levitin mostra que da mesma forma que temos ilusões ópticas, temos também ilusões auditivas e sonoras, onde nosso cérebro "escuta" algo que não foi tocado. Uma dessas ilusões é exemplificada na música dos Beatles "Lady Madonna", onde temos a impressão de escutarmos saxofones numa parte da canção onde eles não estão presentes.


Segundo autor, um ponto relevante sobre a diferença entre a música e outros tipos de arte reside no fato de que a música é manifestada através do tempo e consiste na repetição de padrões agradáveis ao ouvido. Em seguida, mostra como o estudo da música pode ser feito -- com bases neurológicas -- através de medições de eletroencefalogramas (EEGs) ou de áreas de concentração de oxigênio no cérebro (fMRI). Tais padrões elétricos ou de consumo de oxigênio mostram aos neurologistas quais são as partes do cérebro que estão ativas quando nos lembramos de alguma música ou quando as escutamos ou tocamos. E, incrivelmente, a música é um tipo de conhecimento que trabalha um enorme número de componentes cerebrais diferentes, dos mais evolutivamente antigos (como o cerebelo) aos mais modernos e complexos (como o complexo pré-frontal). Interessantemente, a partir de um padrão de eletroencefalograma é impossível saber se uma pessoa está de fato escutando uma canção ou se lembrando dela: as regiões ativas no cérebro são exatamente as mesmas!

O autor também ressalta o fato de que a música consiste num conhecimento bastante relativo e mostra, através de experimentos, que seres humanos reconhecem diferentes músicas ainda que elas sejam tocadas em tons, tempos ou timbres completamente diferentes da versão original. Ainda assim, ele ressalta que um ser humano "normal" normalmente canta uma música que conhece num tom bem próximo do original em que ela tenha sido gravada. Levitin observa que, por exemplo, durante uma festa de aniversário, as pessoas normalmente cantam o "parabéns pra você" simplesmente no tom utilizado pela primeira pessoa que começa a cantá-la, já que não há um "tom original" para esta canção. Apresenta ainda evidências de como nosso senso musical é apurado e como ser humano médio tem uma boa apreensão do som, embora apenas alguns tenha realmente o chamado "ouvido perfeito" (absolute pitch). Ressalta ainda que apenas na cultura ocidental é que criou-se um tipo de mitificação do músico e que em outra sociedades é simplesmente natural que todos cantem e sintam-se musicais de uma certa maneira.

Uma discussão relativamente acadêmica da área de neurologia musical é discutida e está justamente relacionada à discussão sobre o fato da nossa memória guardar uma informação absoluta ou relativa sobre as músicas que escutamos. O fato de lembrarmos normalmente as músicas em seu tempo e notas originais é evidência do armazenamento absoluto; enquanto o fato de que reconhecemo-nas mesmo quando fora dos padrões originais, evidencia o armazenamento relativo. Ao longo do livro, Levitin apresenta evidências reforçando um ou outro lado da discussão, embora em certo ponto diga que o novo consenso que se emerge consiste no fato de que a teoria de representação musical moderna do cérebro deve ser entendida como híbrida entre essas duas teorias originais -- que ele chama de multiple-trace memory model: "estamos gravando tanto informações abstratas e específicas contidas nas melodias".

Outra questão que acho particularmente interessante está relacionada à nossa classificação musical. E assim, Daniel pergunta: o que um som deve ter para que o classifiquemos como blues?, ou rock?, ou jazz? E assim ele entra no problema de categorização, remontando ao problema dos jogos wittgensteinianos, evidenciando que nossa classificação depende de um contexto social e que as categorias classificatórias não têm limites precisos, porém bordas não muito claras e de certa forma sobreponíveis ('fuzzy' seria o termo técnico, em inglês). Além disso, ele mostra que podemos facilmente criar novas categorias musicais a partir do nada -- podemos caracterizar um novo som, por exemplo, como bossa-funk -- bastando para isso que este ritmo soe-nos como intermediário entre os conceitos que já formamos anteriormente.

Ao discorrer sobre o que faz de um músico (Capítulo 7: What makes a musician?), o autor apresenta a teoria das 10.000 horas de prática. Reconhecendo evidentemente que a proficiência é um valor medido pela sociedade, o autor apresenta a teoria de que é possível se tornar um especialista em qualquer área que se deseje após 10.000 de práticas neste assunto particular. (Isso quer dizer 10 anos, se você praticar três horas por dia.) Embora esteja claro também que há uma variação pessoal com relação à aprendizagem de determinadas tarefas por diferentes pessoas -- há uma variação genética e cultural que nos deixa mais ou menos aptos a realizar certas tarefas. O verdadeiro músico é que aquele, segundo Levitin, que não pensa na teoria quando está tocando, mas que simplesmente realiza uma performance de forma a criar uma experiência sonora ao público. O autor cria o conceito de fonogênico que é paralelo ao fotogênico, porém de uma maneira sonora. E diz ser impossível "tirar os ouvidos" da voz de Sting, da guitarra de Clapton ou do saxofone de Miles Davis posto que "uma força invisível nos guia em direção a eles".

O oitavo capítulo trata sobre a aquisição de nosso gosto musical durante nosso desenvolvimento. De acordo com grande parte das teorias cognitivas, está claro que aprendemos qualquer coisa de forma mais efetiva quando ela nos chega quando crianças, devido a uma maior plasticidade neuronal observada nessa idade. Diz-se que Mozart compôs a primeira sinfonia com oito anos; e diz-se também que seu pai era um dos melhores professores de música em toda Europa à época. Teoriza também sobre o fato de nos transformarmos de certa forma no tipo de música que gostamos de escutar. Que esta música de alguma forma modifica nossas conexões neuronais e nos faz diferentes: "quando escuto a música de um grande compositor eu sinto que, em certo sentido, nos transformamos em um só, ou que uma parte dele permanece dentro de mim."

Assim como as penas do pavão, Levitin sugere que a música tenha se desenvolvido no ser humano como instrumento de corte sexual, no processo que os evolucionistas chamam de seleção sexual. Pavões com mais belas penas têm mais facilidade de impressionar fêmeas e se reproduzir. O mesmo, segundo Levitin, seria verdade para os seres humanos com habilidade musical.


Finalmente, no último capítulo, Levitin descreve porque ele acha que o dom da realização e apreciação musical evoluiu no ser humano. Como evolucionista, concordo com ele ao negar a teoria exaptativa de Pinker. Basicamente a explicação está relacionada ao que chamamos de seleção sexual. Aquele que faz boa música é capaz de atrair mais fêmeas e assim deixar mais descendentes. Biológica e neurologicamente falando, a música é um tipo de característica que -- como apresentado também ao longo de todo o livro -- envolve uma enorme gama de regiões cerebrais para que possa ser levada a cabo com excelência. E assim, fazer boa música significa ser adaptado e ter bons genes; é uma demonstração de saúde física -- dada pela proficiência no instrumento -- e mental -- capacidade de tocá-lo de forma a produzir prazer noutros seres humanos. Este quesito é então observado pelas fêmeas como característica boa em um macho a ser passada para sua prole. (E é fato notório que os músicos estão entre aqueles indivíduos da sociedade que são capazes de ir para a cama com um enorme número de fêmeas -- onde comenta sobre a vida sexual de Jimi Hendrix e outros rockeiros.) O livro termina com um paralelo entre música e linguagem: "Como ferramenta para ativação de pensamentos específicos, a música não é tão boa quanto a linguagem. Já como ferramenta de produção de sentimentos e emoções, a música é melhor que a linguagem. E é a combinação das duas -- mais bem exemplificada por uma canção de amor -- a melhor demonstração possível de um corte sexual."

O livro é realmente iluminador, musical e cientificamente. Apresentei aqui apenas alguns pontos-chaves, embora haja muito mais coisa interessante a ser apreendida na obra. Altamente recomendado!

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Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro

Assisti recentemente à série de documentários sobre a maravilhosa obra de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. Os documentários são evidentemente baseado na obra homônima do autor, publicada em 1995. Com a narração de Matheus Nachtergaele, o filme conta a participação de inúmeros músicos e intelectuais brasileiros, como Chico Buarque, Tom Zé, Antônio Cândido, Aziz Ab'Saber, Paulo Vanzolini, Gilberto Gil, Eduardo Gianetti e diversos outros.

O povo Brasileiro. Obra de um dos maiores e mais notórios intelectuais brasileiros, o antropólogo Darcy Ribeiro.


Com entrevistas do próprio autor, citações de poemas e outras obras e vídeos históricos, o documentário incita ao orgulho de nosso povo, de nossas raízes e dessa mistura particular que vem operando em terras canarinhas desde antes da colonização européia. O Brasil índio, europeu, negro, crioulo, sertanejo, sulista, caipira, caboclo. O Brasil da mistura de todas as raças, tentando buscar e trazer toda a virtude de toda a história da humanidade num povo só. O Brasil que é misto na raça e na cultura, na gente e na história, sincretismo religioso e cultural de um povo forte e alegre, sorridente e com todas as faces agrupadas em uma nova face sempre em reconstrução e reinvenção. Uma série extremamente bem feita, "O povo brasileiro" é um filme para ser apresentado em todas as salas de aula, nos colégios do país inteiro!

O brasileiro tem naturalmente uma baixa estima de país colonizado, mas o Brasil é grande e belo, maravilhoso em todas suas cores biológicas e culturais -- e deve ser exaltado. Divido com Ribeiro o otimismo para com o nosso povo e a nossa gente. O que precisamos consiste na árdua tarefa de produzir melhores políticas públicas que possam rechaçar a dominação cultural da elites que chega através cultura de massa do entretenimento -- seja ela nacional ou importada da América do Norte. É hora de exaltarmo-nos e educarmo-nos na direção correta, na direção da multiplicidade de formas e cores e culturas que representamos, é hora de pós-modernizarmos nossas leis, dando a todos os povos brasileiros os direitos que têm -- e que deve ser respeitado.

Confesso ter me emocionado várias vezes ao longo do documentário com a força, a esperança e a convicção de Darcy em nosso povo. Principalmente o último documentário da série é esplêndido, ainda que só faça realmente sentido para os que assistiram-na por completo. Altamente recomendado!

A maravilhosa série sobre "O povo brasileiro". Consistindo numa série de 10 episódios e dirigido por Isa Grinspum Ferraz, apresenta uma interessante sinopse da obra homônima de Darcy Ribeiro, com comentários de diversos intelectuais brasileiros.


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Vale notar que, há pouco tempo, um amigo encaminhou-se um e-mail publicitário que recebera e que tratava de um fanzine cultural. Disse estar mordido (de raiva) sobre o assunto e disse que eu também ficaria.

Basicamente a nova publicação cultural -- com correspondentes em diversas metrópoles dos EUA e Europa -- tinha como objetivo apresentar ao leitor as novas vertentes do primeiro mundo em diversos campos da arte, moda, cinema, pintura e música. A preocupação de meu conterrâneo era relativa a um estado em que ainda vivemos de subordinação cultural ao primeiro mundo. Falta aos brasileiros perceber o quanto somos ricos de nossa própria cultura multifacetada e de nossa herança histórica que engloba tanto o ocidente europeu quanto a África e a cultura indígena, além de uma nova identidade já bem constituída e fundamentalmente brasileira. E o que fazem os brasileiros é -- ao invés de estimular a arte de seu vizinho --, pagar caro pela arte-importada de desconhecidos estrangeiros. Arte esta que não representa, absolutamente, a nossa realidade brasileira. Falta-nos descobrir que o santo de casa é o que faz os mais belos milagres; aqueles que têm uma relação mais próxima conosco e com nosso estilo de vida. Parodiando Hobbes ouso dizer que o brasileiro é o lobo do próprio brasileiro. É urgente uma mudança drástica dos valores que temos sobre nosso próprio povo. Darcy Ribeiro tenta mostrar isso com bastante vigor e otimismo em sua obra. Precisamos segui-lo! Elogie-mo-nos!

Confesso que também uma vez pensei-me sem cultura quando estava no Brasil, antes de fazer minhas (nem assim tão numerosas) viagens pelo mundo. E acho que este é padrão típico do brasileiro que jamais dá valor aos seus colegas assim tão ricos culturalmente, enquanto venera o que vai acima do Equador. O problema pode se dar porque talvez só consigamos entender o valor de nossa cultura quando nos afastamos dela -- ao menos um pouco. E é extremamente difícil para o brasileiro padrão afastar-se de sua cultura, posto que o país é tão grande e faz divisa com o oceano em sua parte mais populosa. O Brasil precisaria sair do Brasil para apreciá-lo em toda sua beleza e esplendor, como faço hoje e como Darcy faz tão bem em seu documentário. O Brasil precisa educar-se sobre a riqueza do Brasil, de seus costumes e de sua gente. Mas infelizmente, a maioria da população não tem recursos financeiros para viajar e verificar com seus próprios olhos a diferença cultural, relativizando as culturas e amando àquela em que nasceu.

Meu amigo entretanto dizia-me achar um absurdo o fato do brasileiro não dar valor ao seu próprio país e ao que cria, à nossa própria cultura. Revoltava-se. De fato, é lamentável. Mas não devemos apenas criticar e reclamar de nosso próprio auto-desdém, o que devemos fazer de fato é lutar contra ele. O que devemos fazer é tentar educar a grande massa de brasileiros nas escolas em todo o Brasil e mostrá-los como somos ricos e diversos, virtuosos em enormes escalas. Precisamos utilizar a força do brasileiro para alavancar o próprio brasileiro.Exaltemos a arte dos nossos vizinhos! Passemos a idéia adiante! Apreciemos nossas próprias obras que são extremamente ricas! E saibamos também, e sempre, respeitar as culturas dos outros povos e compreender que não há apenas uma "Verdade", porém verdades diferentes para grupos diferentes de seres humanos. Infelizmente ainda somos colonizados culturalmente pelo primeiro mundo e os brasileiros não dão tanto valor ao que é seu, sendo o Brasil -- ao que me consta -- um dos únicos países onde o "importado" é mais chique que o nacional.

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PS: O documentário pode ser também visto por inteiro -- embora partido em 30 partes -- através do YouTube.

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Domingo, Fevereiro 15, 2009

Humanismo e crítica democrática, de Edward Said

Edward Said(1935–2003) foi um dos mais importantes críticos literários e culturais dos EUA, além de professor de literatura na Universidade de Colúmbia. Nascido em Jerusalém, foi também um dos maiores advogados dos direitos do povo palestino. Said é mais conhecido por sua obra publicada em 1979 e que é um dos marcos da teoria pós-colonial, uma vertente pós-moderna da teoria crítica literária. Em Orientalismo (1979), Said ele sugere que o Ocidente criou uma visão distorcida do Oriente como o "Outro", numa tentativa de diferenciação e de categorização do próprio Eu-ocidental e que, de certa forma, servia os interesses do colonialismo. A crítica pós-colonial integra uma visão pós-moderna que de certa forma sugere que as realidades observadas são montadas por um discurso enviesado e recheado de interesses dos grupos dominantes [1].

Venho aqui, entretanto, comentar o livro Humanismo e crítica democrática, desenvolvido a partir de um conjunto de conferências apresentadas por ele -- em janeiro de 2000 -- na Universidade de Columbia.

Edward Said foi um teórico literário e crítico cultural palestino. Foi professor de inglês e literatura comparada na Universidade de Columbia, nos EUA. É tido normalmente como um dos fundadores da teoria pós-colonial (veja texto).


Também nesta obra que agora comento, Said argumenta sobre a questão pós-colonial, sobre a riqueza das culturas e sobre o fato de que elas devem, muito mais do que lutar, coexistir e interagir proveitosamente umas com as outras. O autor lamenta -- e este cientista que vos fala com ele -- o declínio dos estudos das humanidades nos últimos anos em prol do desvio de verbas para interesses militares, médicos, biotécnicos e corporativos. Lamentando ainda os ataques do Onze de Setembro, teme que a resposta ideológica a esses atentados venha reforçar ainda mais a visão enviesada e eurocentrista do mundo contemporâneo. Os humanistas, segundo o autor, não devem jamais esquecer o dito de Walter Benjamin de que todo documento de civilização é também um documento de barbárie. A prática humanista deve levar em consideração que as sociedades contemporâneas têm histórias múltiplas e que não podem ser confinadas a uma única tradição, raça ou religião. Tais sociedades são multiculturais e devem ser capazes de reconhecer e transpassar o problemas advindos desta retaliação cultural, reconhecendo os direitos e as necessidades de cada grupo que as constitui, ao invés de tentar separar e pregar a ordem de uns sobre a de outros.

Said critica também o que chama de leiturismo, onde uma leitura atenta de certos textos pode guiar o leitor erroneamente por estruturas de poder e autoridade passadas pela ideologia do autor. Ainda seguindo uma tradição pós-moderna [2], Said argumenta que algo interessante sobre uma grande obra é que ela gera mais -- e não menos -- complexidade à medida que vai sendo analisada por diferentes pensadores ao longo do tempo, podendo gerar uma teia inteira de notações culturais até contraditórias. Este leitor concorda com o argumento e pensa na Bíblia -- que já foi utilizada para defender os mais belos atos de caridade e as mais cruéis guerras -- como exemplo mais crasso do argumento.

O livro de Said "Humanismo e crítica democrática". Uma crítica acirrada e inteligente à atitudes antidemocráticas e antiintelectuais da cultura moderna. Altamente recomendado por este blogue, particularmente a conferência disposta no capítulo 3. Companhia das Letras, 2004. (c)


Vale a pena deixar Said falar por si mesmo, com a clareza argumentativa que tem e o vigor dos bons argumentos:

"Pois, se como acredito, está em andamento em nossa sociedade um ataque ao próprio pensamento, sem falar no assalto à democracia, à igualdade e ao meio ambiente, pelas forças desumanizadoras da globalização, valores neoliberais, ganância econômica (eufemisticamente chamada de livre comércio), bem como ambição imperialista, o humanista deve oferecer alternativas agora silenciadas ou indisponíveis pelos canais de comunicação controlados por um pequeno número de organizações de notícias. Somos bombardeados por representações pré-fabricadas e reificadas do mundo que usurpam a consciência e previnem a crítica democrática, e é a derrubada e desmantelamento desses objetos alienantes que (...) o trabalho do humanista intelectual deve ser dedicado."

A crítica pós-moderna quanto à relação entre o-que-se-vê/o-que-é na sociedade se faz bem clara neste trecho.

Said faz ainda uma homenagem ao livro Mimesis, de Auerbach, dedicando uma palestra inteira (capítulo 4) a descrever e comentar este trabalho que, segundo ele, representa a maior e mais influente obra humanista-literária dos últimos 50 anos (foi publicada nos EUA, em 1953). Finalmente, Said chama escritores e intelectuais à ação:

"O papel do intelectual é, num modo dialético, oposicionista, revelar e elucidar a competição a que me referi antes [entre a cultura de massa capitalista e o interesse democrático do povo], desviar e derrotar tanto um silêncio imposto como a quietude normalizada do poder invisível em todo e qualquer lugar e sempre que possível. Pois há uma equivalência social e intelectual entre a massa de interesses coletivos dominadores e o discurso usado para justificar, disfarçar ou mistificar suas operações, prevenindo ao mesmo tempo as objeções ou questionamentos que lhe são feitos."

E uma citação final para ser refletida pelo povo brasileiro, imerso num mar de desigualdade:

"A paz não pode existir sem a igualdade; esse é um valor intelectual que precisa desesperadamente de reiteracão, demonstração e reforço."

Viva Said!

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[1] Atitude também denominada historicismo ou novo historicismo, quando associada ao conhecimento histórico. Ver Vico, em A nova ciência.
[2] Principalmente relacionada à multiplicidades de sentidos de uma obra, ao foco no leitor e a certo relativismo analítico -- sendo que essas três observações podem ser facilmente colapsadas em uma só.

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Sábado, Janeiro 03, 2009

a viagem do elefante, de josé saramago





Estive por aqui lendo a nova -- e, segundo o próprio autor -- talvez última obra do único prêmio nobel de literatura em língua portuguesa: josé saramago. Sempre inventando moda com a língua portuguesa, neste livro saramago não usa as maiúsculas senão nos começos de frases -- e mesmo os nomes de personagens e cidades no livro aparecem sempre em minúsculas. Isso me lembra uma estratégia semelhante ideologicamente e utilizada no espetacular "ensaio sobre a cegueira" quando o autor escreve um livro inteiro sem citar o nome de nenhum personagem. São as minúcias estilísticas que constroem um grande literato. Isso sem contar com seus recursos sempre presentes, como (1) a utilização única de pontos e vírgulas como sinais de pontuação, (2) os maravilhosos e dinâmicos diálogos entre as personagens e (3) um quê de surrealidade e loucura temáticos; (4) frases e parágrafos longos e contínuos que, apesar disso, jamais entediam ou deixam o leitor perdido.

Transcrevo aqui um relato sensacional de mostra e divulgação do pensamento crítico tido por um dos personagens do livro "A viagem do Elefante" de Saramago (pags 114-116).

"(...) Vejo-te muito severo com o pobre do salomão, Talvez seja por causa da história que um dos ajudas me acabou de contar, Que história é essa, perguntou o comandante, A história de uma vaca, As vacas têm história, tornou o comandante a perguntar, sorrindo, Esta, sim, forma doze dias e doze noites nuns montes da galiza, com frio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leita, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, Ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais.

Um silêncio respeitoso reinou durante alguns segundos na grande sala de pedra. Os soldados presentes, embora não muito experimentados em guerras, baste dizer que os mais novos nunca haviam cheirado a pólvora nos campos de batalha, assombravam-se no seu foro íntimo pela coragem de um irracional, uma vaca, imagine-se, que havia mostrado possuir sentimentos tão humanos como o amor de família, o dom do sacrifício pessoa, a abnegação levado ao extremo. O primeiro a falar foi o soldado que sabia muito de lobos, A tua história é bonita, disse para subhro, e essa vaca merecia, pelo menos, uma medalha ao valor e ao mérito, mas há no relato algumas coisas pouco claras e até mesmo bastante duvidosas, Por exemplo, perguntou o cornaca em tom de quem já se preparava para a luta, Por exemplo, quem te contou esse caso, Um galego, E como o conheceu ele, Deve tê-lo ouvido a alguém, Ou lido, Não creio que saiba ler, Ouviu-o e decorou-o, Pode ser, eu contentei-me com repeti-lo o melhor que pude, Tens boa retentiva, tanto mais que a história vem contada numa linguagem nada corrente, Obrigado, disse subhro, mas agora gostaria de saber que coisas pouco claras e bastante duvidosas encontras tu no relato, A primeira é o facto de se dar a entender, ou melhor, é claramente afirmado que a luta entre a vaca e os lobos durou doze dias e doze noites, o que significaria que os lobos atacaram a vaca logo na primeira noite e se retiraram, provavelmente com baixas, na última, Não estávamos lá, não pudemos ver, Sim, mas os que conhecem alguma coisa sobre lobos sabem que esses animais, embora vivam em alcatéia, caçam sozinhos, Aonde queres tu chegar, perguntou subhro, Quero chegar a que a vaca não poderia resistir a um ataque concertado de três ou quatro lobos, já não digo doze dias, mas uma única hora, Então, na história da vaca lutadora tudo é mentira, Não, mentira são só os exageros, os arrebiques de linguagem, as meias verdades que querem passar por verdades inteiras, Que crês tu então que se passou, perguntou subhro, Creio que a vaca realmente se perdeu, que foi atacada por um lobo, que lutou com ele e o obrigou a fugir talvez mal ferido, e depois se deixou ficar por ali pastando e dando de mamar ao vitelo, até ser encontrada. E não pode ter sucedido que viesse outro lobo, sim, mas isso já seria muito imaginar, para justificar a medalha ao valor e ao mérito um lobo já é o bastante. A assistência aplaudiu pensando que, bem vistas as coisas, a vaca galega merecia a verdade tanto como a medalha
."


Espetacular diálogo saramaguiano de divulgação do pensamento crítico. Viva saramago!

Finalmente, "a viagem do elefante" apresenta ainda diversos pontos altos onde o autor divaga metalinguisticamente sobre sua própria forma interrompida de escrita, mostra o abuso de autoridade de alguns (quando o nome de subhro é modificado para fritz pelo duque austríaco) e busca a fundo palavras pouco utilizadas no português, apresentando-as ao leitor. Mais um viva a saramago: Viva!

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Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Woddy Allen's: Vicky Cristina Barcelona


Segundo a opinião deste crítico amador, Vicky Cristina Barcelona é um dos melhores filmes de Woody Allen dos últimos tempos.

Um filme sensível, quiçá artístico. Uma crítica à sociedade americana e uma apreciação do amor livre e da cultura européia. Realista e belo, foge dos tradicionalismos e apresenta uma história romântica e inspiradora, sem um final feliz. Um relato moderno da vida e das vidas no século XXI.


Duas turistas americanas decidem passar dois meses em Barcelona e encontram um poeta e pintor em uma galeria de arte. Desquitado, havia tido problemas graves com a ex-mulher. Cristina (Scarlett Johansson) desde o início está interessada no rapaz, enquanto Vicky (Rebecca Hall) o pensa um pervertido e folgado. Ainda assim, aceitam a proposta do rapaz em passar um fim de semana em Oviedo para talvez fazerem amor. Mas quando Cristina passa mal é com Vicky que o rapaz sai; ela acaba sendo seduzida pela poesia presente na alma de Juan Antonio (Javier Bardem) e eles fazem amor. Mas ela está noiva e não quer acabar com seu casamento. Vicky é careta, enquadrada nos pensamentos mesquinhos da sociedade americana moderna e se sente perdida quando se apaixona pelo pintor. Mas ele não quer incomodá-la -- de fato, eles têm personalidades assim tão diferentes -- e nos dias que se seguem Juan Antonio convida é Cristina para sair; e é com ela que um romance gostoso se desenvolve. Rapidamente a personagem vivida por Johansson muda-se para a casa de Juan. As coisas vão bem até o dia em que a ex-mulher de Juan volta à cena. Havia chegado de Madri e tentara se matar. O pintor vai buscá-la no hospital e chega com ela em casa. Cristina se horroriza com a idéia de que os três precisarão viver juntos. Maria Elena (Penelope Cruz) não tem onde morar, mas é linda, inteligente e interessante -- apesar de não estar assim tão interessada em ter que falar inglês em sua própria casa. Criativa, foi ela quem inventou o estilo de pintura que Juan Antonio utiliza, ela toca piano, é linda e entende de fotografia. Depois de um início conturbado, rapidamente os três começam a se dar bem: Cristina era a peça que faltava para a harmonia entre Juan Antonio e Maria Elena. Um triângulo se dá e o amor livre impera, todos se amam naquela casa e tudo corre às mil maravilhas. A vida agradável que vivem chega a dar inveja ao público do outro lado do telão. Enquanto isso, Vicky tem dúvidas se quer mesmo casar com seu marido-padrão americano. Uma crítica forte à sociedade americana vem à tona: conversas vazias e estúpidas estão presentes quando os americanos são mostrados. Enquanto isso, Maria Elena monta um estúdio de fotografia para Cristina. Saem por toda a cidade tirando fotos e se amam no estúdio. A vida segue assim até que está para chegar o dia em que as turistas americanas devem voltar para suas casas: é o fim do verão em Barcelona. Cristina dá o anúncio: precisa ir embora. Maria Elena se desespera: será que ela não vê o quanto eles se amam naquela casa? O quanto a amam? Como ela pode querer partir? Da platéia, não consigo discordar da personagem de Penélope Cruz. Mas a americana está decidida: vai embora. Diz que esta não é sua vida e que precisa voltar. Decide passar uns dias na França antes de partir e se vai. Sem a peça-chave que os complementava, Maria Elena e Juan Antonio voltam a se desentender e separam-se em poucos dias. Vicky ainda está apaixonada pelo pintor e tenta um último encontro antes de voltar à América. O encontro se dá, mas Maria Elena chega com uma arma em punho e frustra o amor dos dois. Enfim, Vicky decide ficar com seu estúpido marido-padrão americano e a última cena do filme mostra as duas americanas no aeroporto voltando para casa. Cristina não sabe o que quer, mas sabe bem o que não quer. Dá vontade de dizer à Americana para ficar. Mas ela se vai: o filme representa bem a vida real.

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Sábado, Dezembro 20, 2008

Tim Maia


Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia, por Nelson Motta (Objetiva, 2006).

Acabou chegando às minhas mãos esta biografia do famoso carioca-da-gema-do-ovo Sebastião Rodrigues Maia, escrita por Nelson Motta. Ela conta basicamente a história dos percalços do sucesso do cantor e compositor; além de seu envolvimento com mulheres, álcool e drogas. Segundo a biografia deixa claro, Tim Maia era um sujeito completamente amoral, caótico e tinha uma visão própria do meio artístico e musical brasileiro. Morador da Tijuca, era amigo de infância de Erasmo e Roberto Carlos e foi ele quem ensinou os primeiros acordes de violão ao amigo Erasmo. Viajou aos Estados Unidos, onde aprendeu inglês, cantou e foi preso. Quando voltou, seus velhos amigos já faziam sucesso e desta forma correu atrás do seu também. Ao que consta, foi a gravação de "Não vou ficar" por Roberto Carlos na segunda metade da década de sessenta que alavancou a carreira do compositor Tim, deixando-o pela primeira vez face-a-face com o sucesso.

Com várias frases de efeito, como "estratégia" que gritava quando algo dava errado e deveria sair de cena fugido, Tim Maia dá a impressão de ser um sujeito super-simpático e descontraído. Por outro lado, nada era capaz de empurrá-lo ao palco quando parecia não estar com vontade de fazer seus shows e era famoso por faltar muitas vezes aos mesmos. Quando os titãs o convidaram para uma participação especial em seu show acústico, Tim respondeu que se não ia nem em suas próprias apresentações, o que diria das apresentações dos outros. De fato, talvez seus shows fossem assim tão bons porque ele nunca os fazia quando não estava com vontade. Gostava bastante de torar um "baurete" em algum "garrastazu", ou seja, fumar um baseado em algum local escondido e propício para tal. A maconha foi a única droga que Tim jamais largou durante a vida.

Já no auge de sua carreira, Tim Maia não tinha quaisquer regras e contratava e descontratava músicos e shows a seu bel-prazer. Às vezes era uma visita em sua casa que atendia o telefone e agendava um show. Difícil era saber se Tim compareceria, ainda mais se tivesse que pegar um avião para tal. Tinha rixas com quase todas as gravadoras e criou sua própria, a Seroma, que pagava aos sábados, domingos e feriados, mesmo após as 21 horas. Enrolado com dinheiro, nosso herói dá a impressão de jamais ter contratado um músico seriamente e pagava-os com grana viva segundo aquilo que achava que mereciam; as vezes mais, às vezes menos. Tendo uma índole extremamente emocional, mandava embora funcionários de uma hora para outra ou os readmitia também de forma similar. Caótica e sem regras era sua vida.

Dentre os casos mais curiosos, ingressou na religião do Racional Superior e lançou dois CDs pra pregar a cultura racional. Depois caiu na real, chutou a religião, retomou álcool e as drogas. Posteriormente, jamais quis saber destes dois discos lançados. Quando Marisa Monte quis regravar o hit "Que beleza", Tim pediu para que ela deixasse essa coisa pra lá. O sr. Maia gravou com os melhores da Bossa Nova e do Rock de seu tempo e deu um suingue Funk em quase todas as músicas que gravou, não bastasse o enorme poderio de sua voz potente e inconfundível. Morreu em 15 de março de 1998, após passar mal em um show logo quando parecia ter-se decidido diminuir na gordura, no álcool e nas drogas. Talvez tenha sido isso: seu corpo já estava acostumado ao seu triátlon doidão. Foi-se Tim mas suas músicas continuam fazendo sucesso, levantando multidões e divertindo os brasileiros. A biografia vale também para conhecermos melhor a discografia do cantor e fiquei com bastante interesse em escutar alguns discos de Tim Maia que não sabia existirem.

Um pouco de crítica literária

Quanto à biografia per se, eu diria que ela conta basicamente a história do sucesso de Tim Maia, não exatamente a história da pessoa do cantor, embora as coisas estejam claramente interligadas. Falta talvez entrar mais profundamente no universo psicológico do ser humano Sebastião e falta uma caracterização mais existencialista no processo biográfico realizado por Nelson Motta. É uma história superficial da vida do cantor, compositor e intérprete carioca. Conta o desenvolvimento de seu sucesso, suas relações profissionais com outros artistas e gravadoras, sua rebeldia com relação à forma como a indústria musical brasileira foi e ainda é construída, seu envolvimento freqüente com maconha, cocaína e álcool. Mas o livro conta pouco sobre a pessoa de Sebastião Rodrigues Maia, sobre a relação real que tinha com suas amadas, com sua família e amigos. Neste ponto, a obra de Motta é um relato bastante superficial; enfim, não se pode fazer tudo ao mesmo tempo e o livro tem um vocabulário bastante simples e sua leitura é agradável e direta: quase um diálogo entre o biografista e o leitor. Sem dúvida é um livro popular que pode ser lido por qualquer indivíduo, sem qualquer aridez documental. Por vezes achei a escrita um tanto quanto sem cuidados e não gostei do fato de que o autor usa o termo "Providência Divina" algumas vezes ao descrever relatos da vida deste gordinho simpático. Creio que a tarefa do biografista deva consistir em relatar a história tentando envolver minimamente suas crenças e opiniões. Motta tem uma enorme quantidade de opiniões enviesadas -- e às vezes, caretas -- sobre as atitudes e comportamentos de Tim, o que nos faz pensá-lo de má-índole. Enfim, não é possível escrever nada que seja totalmente imparcial, mas por vezes penso que Motta exagera nas opiniões morais, na escolha enviesada do que relatar (sempre drogas e problemas) e pinta um Tim Maia totalmente caótico e quiçá louco. Talvez seja mesmo a verdade; e não sei dizer se Sebastião teria gostado da obra, mas acredito -- com minha opinião também enviesada -- que a resposta seria negativa. De qualquer forma, a obra permite que conheçamos melhor sobre a vida e obra deste grande nome da música brasileira. E se é como a banda Vitória Régia dizia ao fechar seus shows e se realmente "Vale Tudo", a leitura do livro vale muito a pena: bom proveito aos leitores.

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Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Tábula rasa, Stephen Pinker

Acabei de assistir uma palestra TED ministrada pelo psicólogo evolutivo Stephen Pinker sobre seu livro lançado em 2002 chamado Tábula rasa (The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature). A idéia deste livro consiste em traçar argumentos -- óbvios para qualquer biólogo como este quem vos fala -- segundos os quais os seres humanos não são moldados apenas pela cultura. Embora Pinker jamais negue que os seres humanos são seres culturais e diretamente influenciados por sua cultura ou sociedade, ele argumenta que os estudos em psicologia ou sociologia normalmente consideram que a natureza biológica do ser humano não influencia de forma significativa suas (nossas) ações. E esta pressuposição, argumenta brilhantemente Pinker, é falsa! E seu forte argumento consiste no fato de que nossa natureza biológica precisa ser levada em consideração nestes casos para que entendamos melhor nossa natureza e nossa sociedade.



Tábula rasa: livro do psicólogo evolucionista Stephen Pinker recheado de argumentos dizendo que, para entendermos o comportamento do humano em sociedade, não devemos apenas observar fatores culturais, mas também nossa natureza biológica.

Pinker relata que estudos em psicologia infantil mostram, por exemplo, que pais violentos têm filhos violentos ou que pais com alta capacidade de comunicação têm filhos que se comunicam bem, etc. Sua crítica vem do fato de que tais estudos não levam em consideração, por exemplo, o fato de que a genética de pais e filhos é similar e que, portanto, este fator precisa também ser analisado quando de um estudo sério -- algo que normalmente não acontece. Para verificar sua teoria, Pinker utiliza estudos em gêmeos separados ao nascimento e estudos de filhos adotivos -- e argumenta que tais estudos precisam ser melhor explorados.[1]

Apesar de quase-evidentes e um tanto quanto bem argumentadas, as teorias de Pinker são tão controversas que alguns de seus críticos, após lerem seu livro, sugeriram que ele 1) comprasse uma câmera de segurança para sua casa; 2) não esperasse mais receber prêmios, empregos ou posições profissionais em sociedades acadêmicas e; 3) que não colocasse a cidade onde mora na biografia do livro.

Os homens não parecem estar maduros o suficiente para entenderem melhor sua própria natureza como animais sociais. Pinker termina sua apresentação dizendo que é nossa escolha se devemos 1) estudar-nos sendo intelectualmente honestos com relação à nossa natureza ou 2) se devemos simplesmente deixar de lado o estudo de tópicos que são tabus em nossa sociedade. Sua frase final foi obtida do escritor russo do século XIX: Anton Chekov dizia "O homem se tornará melhor quando mostrarmos a ele como ele é."

A interessantíssima palestra pode ser vista clicando neste link. Faça bom proveito! [2]


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[1] Apesar de que concordo 99% com a crítica de Pinker, acredito que ele deveria tocar mais diretamente no tema do determinismo biológico. O determinismo biológico está ligado ao fato de que alguns biólogos e geneticistas acreditam que as atitudes de um ser humano podem ser diretamente associadas à sua genética. Biólogos de verdade têm horror a esta idéia e admitem que as variáveis sociais e o acaso têm uma enorme influência nas atitudes de cada um. Ter uma determinada genética pode até conferir algum tipo de facilidade ou dificuldade a algum indivíduo, mas este dom ou revés pode nunca ser manifestado.
Imagine por exemplo um indivíduo que tenha um ouvido capaz de distinguir muito bem os sons (um ouvido absoluto) mas que jamais -- por qualquer circunstância que se possa imaginar -- tenha tido contato com nenhum instrumento musical. Isso pode muito bem acontecer e todo indivíduo é formado por sua genética, seu meio social e por um enorme fator de aleatoriedade com relação à tudo que aconteceu em sua vida (contingência). Ainda que Pinker toque no assunto, acho que vale a pena reforçar também este ponto.
[2] Embora eu mesmo não tenha lido o livro "Tábula rasa", li um outro de seus livros chamado "Como a mente funciona" (How the mind works) e achei bastante interessante. Recomendo aos interessados em qualquer área relacionada aos estudos cognitivos e também aos biólogos evolutivos ou a qualquer um que queira conhecer algumas curiosidades -- tratadas seriamente -- sobre como nossa mente-cérebro de fato opera.


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Domingo, Novembro 16, 2008

Dizeres sobre a simplicidade

Tenho um colaborador no trabalho, um francês de Marseille, que realiza tudo o que pode para transformar seu trabalho em algo bastante complexo e difícil de se entender. Ele utiliza todas as mais modernas tecnologias para dizer que o programa que desenvolve é bom, útil, eficiente e moderno. Esquece-se, meu amigo, que a riqueza está na simplicidade. Ao invés de clicar um botão para acessar seu programa, tenho que passar por duas dezenas de janelas, digitar comandos desnecessários e interpretar códigos complexos até obter o resultado que jamais consegui entender muito bem. Seria muito melhor se ele gastasse seu tempo a se ocupar realmente de coisas úteis -- ou seja, foco no resultado e como interpretá-lo -- ao invés de produzir um sistema que produz dados em diferentes arquivos XML, armazenados num banco de dados em estrutura de árvore não indexada e encriptado segundo a mais moderna tecnologia possível. Como não me sinto à vontade em enviar-lhe diretamente alguns dizeres sobre a simplicidade, venho aqui neste blogue desabafar. Eis alguns dos mais belos dizeres sobre a simplicidade que encontrei:

Simplicity is the ultimate sophistication.” (Leonardo da Vinci)

Everything should be made as simple as possible, but not simpler.” (Albert Einstein)

Most of the fundamental ideas of science are essentially simple, and may, as a rule, be expressed in a language comprehensible to everyone.” (Albert Einstein)

"Any intelligent fool can make things bigger, more complex, and more violent. It takes a touch of genius - and a lot of courage - to move in the opposite direction." (E.F. Schumacker)

Simplicity is the final achievement. After one has played a vast quantity of notes and more notes, it is simplicity that emerges as the crowning reward of art.” (Frederic Chopin)

To be a philosopher is not merely to have subtle thoughts, nor even to found a school, but to so love wisdom as to live according to its dictates a life of simplicity, independence, magnanimity and trust.” (Henry David Thoreau)

"Plurality should not be assumed without necessity." (William of Ockham (also known as Ockham's Razor))

"The ability to simplify means to eliminate the unnecessary so that the necessary may speak." Hans Hofmann, Introduction to the Bootstrap, 1993

"Life is really simple, but we insist on making it complicated." Confucius

"Anything simple always interests me." David Hockney

"The greatest truths are the simplest: so likewise are the greatest men." Augustus William Hare and Julius Charles Hare, Guesses at Truth, by Two Brothers, 1827

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Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Conferências TED

Outra das coisas que tenho feito com certa freqüência nesta época de solteirice durante as noites francesas consiste em assistir algumas conferências no YouTube.

Partindo do site da Folha de São Paulo, da coluna do jornalista científico Marcelo Leite, acabei navegando pela internet e chegando a uma das palestras TED. Como relata diretamente o site:



"TED é um acrônimo de Technology, Entertainment, Design e foi uma conferência inicialmente realizada em 1984 que reuniu pesquisadores destes três grandes ramos do conhecimento para realizar palestras e falar ao público. Desde então seu escopo se tornou ainda maior" e hoje o site oficial do TED ou do TED no YouTube apresenta um enorme número de palestras dos mais proeminentes intelectuais do mundo, em um enorme número de diferentes áreas do conhecimento humano
.

Realmente é o caso. Ao navegarmos diretamente por este sítio podemos encontrar palestras de alguns dos maiores intelectuais da atualidade. Existem ali palestras com os renomados biólogos: Jane Goodal, Richard Dawkins, Jared Diamond; o filósofo Daniel Dennet; o ativista ambiental e ganhador do prêmio nobel da paz: Al Gore; o físico Brian Greene; e o cientista cognitivo Stephen Pinker. Além de muito mais coisa interessante! Vale a pena passar lá pra dar uma olhada em outros assuntos de seu interesse.

Dentre essas TEDtalks citadas acima recomendo fortemente a palestra do Dawkins e do Dennet. Recomendo também a palestra do John Francis, ambientalista americano e funcionário da ONU que andou por todos os Estados Unidos e nega-se a entrar em veículos motorizados.

Antes de terminar, vale a pena dizer que cheguei também a assistir algumas palestras ruins no TED -- não vale a pena enumerá-las aqui. Há palestras que consistem no mais puro entretenimento nerd e outras que têm o mal-cheiro do fundamentalismo religioso. Enfim, ao menos é um site democrático. Use com pertinência!

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Quarta-feira, Novembro 12, 2008

Before you accuse me (ou Meu professor virtual de blues)

Venho aqui para conferir desta vez palavras de honra ao YouTube. Tenho aprendido e conhecido bastante sobre cultura, arte e música através do site. Definitivamente a mídia em movimento (vídeo) nos permite aprender bastante ao assistirmos palestras, shows de música antigos ou mesmo aulas explícitas.

Por falar nisso, sou de longa data apaixonado por música e por violão e sempre fui um apreciador de blues. Porém minhas capacidades em música são limitadas e jamais sido capaz de tocar um blues até que há alguns meses, navegando aleatoriamente pela rede, encontrei exatamente no YouTube uma aula básica de blues. A câmera filmava o braço do violão e o professor dizia o que deveríamos fazer lentamente para que pudéssemos acompanhá-lo e segui-lo ao violão. E assim, em menos de uma semana eu já estava tocando meu primeiro blues. Inclusive ainda lembro muito bem dele e o toco frequentemente quando pego minha guitarra ou violão para me divertir em minhas solitárias noites aqui na França.


O CD Eric Clapton Unplugged, um CDs de blues maravilhoso! Faixa 2: before you accuse me!


Infelizmente não me lembro e não consegui encontrar agora no YouTube esta primeira aula para apresentá-la aqui, mas o que me trouxe aqui foi justamente uma outra aula sobre o blues. Sempre gostei e quis tocar uma música que conheci através do Eric Clapton e que se chama "Before you accuse me". Descobri há pouco que a música é de autoria na verdade de um bluseiro negro americano chamado Bo Diddley. Enfim, gosto particularmente da música porque ela é uma crítica à crítica e diz "Before you accuse me / Take a look at yourself" (Antes de me acusar / Olhe pra si mesmo). Não só por isso, claro. Ela tem um ritmo de blues bastante tradicional e agradável e sempre quis tocá-la. Enfim, ainda estou aprendendo. Pra quem não conhece, vai a letra:

Before You Accuse Me
by Ellas McDaniel

Before you accuse me, take a look at yourself
Before you accuse me, take a look at yourself
You say I've been spending my money on other women
You've been taking money from someone else

I called your mama 'bout three or four nights ago
I called your mama 'bout three or four nights ago
Well your mother said "Son"
"Don't call my daughter no more"

Chorus

Come back home baby, try my love one more time
Come back home baby, try my love one more time
If I don't go on and quit you
I'm gonna lose my mind

Chorus


Clique aqui para visualizar o vídeo da aula no YouTube ou aqui para ver o próprio Eric Clapton tocando no DVD unplugged


Achei interessante que durante a aula do YouTube sobre como tocar esta música, apesar de não ser possível ver a cara do professor, é possível perceber que ele é realmente um músico -- no sentido que está mais interessado numa compreensão sonora da música do que em uma compreensão técnica da mesma. Não são todos os professores do YouTube que têm a mesma filosofia de ensino musical. Eu que não sou músico -- ainda chego lá! -- sempre tendo a tocar a música de uma forma um tanto quanto técnica, ou seja, vejo exatamente as notas tocadas e tento reproduzí-las da mesma forma. Treino à exaustão até achar que o resultado na guitarra ficou razoável. Mas a voz do professor também faz diferença, ele diz durante esta aula: "Não é preciso tocar exatamente desta forma, você deve apenas reproduzir os sons que fazem as pessoas reconhecerem a música como sendo esta. Eu mesmo a toco ligeiramente diferente a cada vez." Voilà, é exatamente esta a sensibilidade-do-músico que me falta. Continuo em meu caminho.

MORAL DA HISTÓRIA: a internet, a banda larga, o YouTube são realmente ferramentas eficazes para a educação, seja ela musical ou acadêmica (veja próxima postagem). A internet sem dúvida revoluciona e facilita extremamente a aquisição de conhecimento pelo ser humano e permite que sejamos capazes de aprender tanto quanto quisermos -- certamente teremos agora mais a aprender do que teremos tempo ou disciplina para tanto. O mundo do conhecimento está aí para ser explorado e só não o explora, quem não quer -- ou, no Brasil, quem não teve oportunidade para aprender e ter acesso à tecnologia. Aos outros, boa sorte! Vou tocar meu blues!

Um outro bom vídeo que explica de maneira super-simples o 12-bar blues é este: http://www.youtube.com/watch?v=nLXGJrSTLSs

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Domingo, Outubro 26, 2008

Sobre a veracidade na literatura




O excelente livro "O diário de um farol", de João Ubaldo Ribeiro. Contado em primeira pessoa, o livro começa com o personagem-narrador dizendo que toda a história que está prestes a contar consiste na mais pura verdade.


Comecei aquele texto com um aviso (disclaimer) ao leitor: o que eu estaria relatando ali não estaria absolutamente conectado de forma clara à verdade do que acontecera. É que às vezes escrevo textos literários para o blogue e as pessoas estão sempre a achar que tudo aquilo aconteceu comigo e que tudo foi uma verdade que eu tenha vivido. Isso não é verdade.

A verdade é que há textos que são mais próximos do que realmente ocorreu e outros que são assaz distantes do fato verídico, tendo na realidade apenas a idéia motora inicial para o desenvolvimento de uma história qualquer. Particularmente neste texto que começava com o disclaimer, eu relatava sobre pessoas que conheci em situações profissionais; e a profissão era uma parte relevante do assunto, de forma que não podia ficar de fora do relato. Mas exatamente por se tratar de um fato profissional, queria deixar claro que estava romanceando a história e que -- caso alguém do meu círculo profissional lesse o caso -- deveria entender que nada daquilo havia de fato acontecido. Ao menos, não daquela forma.

Dito isto, escrevi o que tinha para escrever. Havia sexo na história e sexo é algo que ainda choca as pessoas, principalmente se associado a um sentimento libertário e livre como era o deste texto. Terminei a escrita do texto e o reli, como de costume. De repente o disclaimer apresentado na introdução pareceu-me idiota: estava claro que era uma ficção, não realidade. Mas todos os outros textos daquele blogue haviam sido escritos na mesma filosofia, porque fazer o disclaimer só para aquele? Par contre -- como o diria o francês --, pareceu-me também que saber da falsidade de uma história antes de lê-la tirava-lhe um pouco a graça. Faz parte da literatura transportar o leitor para um mundo que, se não aconteceu, poderia muito bem ter acontecido. Assim, de certa forma a literatura consiste sim em uma realidade, ainda que desconectada desta que temos no mundo dito real, mundo do viver que se situa entre o acordar e o dormir.

E quando pensava sobre tudo isso, veio-me à cabeça a lembrança do início do livro "Diário de um farol", escrito por João Ubaldo Ribeiro. O livro -- muito bom! -- trata das histórias de um sujeito perverso e sociopata, algo que não vem ao caso agora. O que realmente vem ao caso é que ele começa a história com a estratégia completamente invertida com relação à minha de apresentar o disclaimer. Ainda que a história tenha sido completamente inventada por João Ubaldo, este transveste-se do personagem e começa o livro dizendo que irá contar exatamente sua história verídica. Narrando sempre em primeira pessoa, o personagem-narrador diz que foi exatamente aquilo que viveu e que aquela é toda a verdade sobre sua vida até onde ele possa realmente alcançar [1].

Ora, vejo então que João Ubaldo tomou exatamente a linha ideológica oposta à minha. Ao invés de apresentar seu texto como uma ficção, de forma contrária ele reforçou a presença da realidade em seu relato. E este sentimento é tão forte no livro, os sentimentos do personagem são tão bem descritos e elaborados que por vezes chegamos a pensar, durante a leitura: "será que não foi mesmo esse cara que escreveu? Será que João Ubaldo não é apenas um ghost writer para esse sujeito perverso?". E este pensamento não é senão a atestação de uma enorme qualidade literária deste escritor baiano e membro da Academia Brasileira de Letras. Salve, João!

Sobre o meu texto, tirei o disclaimer e publiquei daquele jeito mesmo. As pessoas que pensem o que quiserem.

--


[1] Tudo isso vale apenas se considerarmos que minha lembrança não me prega peças sobre este livro. Como já o li há algum tempo, pode ser que eu diga alguma coisa ligeiramente falsa aqui. E como isso não é literatura, mas são sim pensamentos e um pouco de crítica literária, isso precisa ser dito.

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Felicidade anti-democrática

É triste dizer isso, mas hoje estou aqui na França satisfeito -- se é que se pode dizer isso -- por não ter que ir às urnas exercer meu direito de cidadão perante as eleições municipais da minha cidade. Seria bastante difícil fazer uma escolha entre:

1) Um sujeito que foi um suposto beneficiário de centenas de milhares de reais no esquema do mensalão e parecia ter ligações diretas com a ditadura; e
2) Um outro sujeito que aumentou seu patrimônio em quase 1 milhão de reais durante apenas três anos, exatamente durante a época em que ocupou cargos públicos municipais e federais.

É mole ou não é?

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Sexta-feira, Outubro 10, 2008

100 anos de Cartola


"A sorrir / eu pretendo levar a vida"
(O sol nascerá)


Amanhã a Terra completará sua centésima volta ao redor do sol desde que veio ao mundo o cantor e compositor Angenor de Oliveira. Nascido no Rio de Janeiro, há um século atrás, Cartola é um ídolo do samba e poeta nato. Segundo a história, Cartola foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira quando morava exatamente naquele morro lá pelos idos de 1928. Inclusive consta o relato que as cores verde e rosa tiveram inspiração nas cores do Fluminense, time do coração deste carioca.

Apesar de sua vocação como cantor e compositor, Cartola nunca conseguiu se integrar de forma "normal" ao mercado de trabalho -- talvez esta seja, inclusive, a maior evidência de sua alma verdadeiramente poética. Assim, trabalhou em bicos como pedreiro, pintor de paredes, lavador de carros, vigia de prédio e office-boy. Foi nos anos 50 que o escritor Sérgio Porto -- o Stanislaw Ponte-Preta -- encontrou-o lavando carros num posto em Ipanema e o relançou como cantor e compositor. Ainda assim, o primeiro LP de Cartola foi lançado apenas 1974, quando ele já era sexagenário. Neste disco, ele apresentava canções que tiveram como temas, principalmente: o amor, a alegria e a esperança. Dentre as canções deste primeiro CD, cito por exemplo: Tive Sim (Cartola), O Sol Nascerá (Cartola - Elton de Medeiros) e Alvorada (Cartola - Carlos Cachaça - Hermínio B. de Carvalho).

É de seu segundo CD, entretanto, lançado em 1976 que gostaria de apresentar ao leitor uma canção que incita reflexão. Este segundo LP do talvez maior ídolo do samba parece-me uma apropriação artística com uma temática mais solitária, de certa forma depressiva, um tanto existencialista e excessivamente poética -- em um sentido mais acadêmico ou clássico, se não me engano. Imagino que muitas das canções deste LP tenham sido feitas tendo como inspiração uma ou mais decepções amorosas que o sambista tenha tido durante a vida.

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O Mundo É Um Moinho
Cartola

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés


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Nesta canção gosto muito da crítica que Cartola faz à decisão de sua consorte em -- imagino, nesta interpretação talvez falha -- o deixar. Evidencia assim, o poeta, a juvenilidade de seu amor "mal começaste a conhecer a vida" e apresenta-lhe o fato inevitável: a vida é feita de mudanças e "em pouco tempo não serás mais o que és". Questiona assim, de forma poética, a decisão tomada por seu "amor".

De forma talvez pessimista, talvez realista, Cartola pede que seu amor o ouça bem. O mundo real é duro e tritura os nossos sonhos. O poeta do morro critica ainda sua companheira por ter sonhos assim tão mesquinhos ao invés de entregar-se ao seu amor. De minha parte, divido com Cartola esse sentimento de pessimismo com relação aos meus mais belos sonhos, embora insista em persistir neles -- ainda que eles por vezes veja-os transformados em pó.

Finalmente, o eu-lírico da canção apresenta à sua "querida" que o abismo em que por vezes nos vemos diante consiste num abismo psicológico criado por nós mesmos e que precisamos transpassar para crescermos como pessoas, cidadãos e poetas.

===

Cartola morreu de câncer, em sua cidade natal, no dia 30 de novembro de 1980. Apesar do enorme sucesso de suas composições, o sambista morreu pobre, morando numa casa doada pela prefeitura do Rio de Janeiro. O mundo, de fato, reduziu suas ilusões a pó. Eis nosso dever: resgatar e vangloriar a obra deste maravilhoso artista!

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Bloguística: uma nova forma de diálogo literário

Preciso. Precisaria de alguém para organizar minha vida intelectual. De fato, sou desorganizado. Ônus, talvez, de um excesso de criatividade. Sempre penso que a criatividade vai aos avessos da organização. Se fosse organizado, teria livros, faria revisões, leria e releria mil vezes tudo o que escrevo. Poliria melhor as arestas. Hesitaria ainda mais antes de clicar o botão "Publicar". Mas a vida se passa, o dia se vai, o sol se põe de um lado e se levanta do outro: o tempo não pára, não. Não tenho livros, tenho blogues e mais blogues.

Minha vida não é um livro, ela é um blogue. Blogues são mais libertários que livros: são assim despojados, malamanhados, por vezes podres; à noite brilham. Livros exigem um trabalho muito grande de polidez. Postagens de blogue não. Toscas e diretas, sinceras como o vômito, efêmeras que nem diamantes: ei-las. A literatura de blogue é um novo ramo que surge à parte dentro da história da literatura. Viva a internet e o mundo da super-informação. Faço parte de um novo movimento literário virtual, bebê cultural nascido no século XXI. Vida longa à literatura bloguística. E que sigam-me os bons!

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Quarta-feira, Outubro 01, 2008

Otimismo no mediterrâneo

Tive um sonho muito bom esta noite e acordei extremamente otimista perante a vida. Durante estas últimas semanas em Marseille conheci dezenas de cientistas altamente interessantes e de bem com a vida. O congresso da semana passada -- Evolutionary Biology in Marseilles -- foi verdadeiramente bom e havia um clima agradável de amizade entre os participantes. (A propósito, isso não é muito comum entre cientistas que estão sempre em competição e ficam querendo um furar os olhos dos outros.)

Além de tudo, fui otimamente recebido aqui na casa de um professor com mais de uma centena de artigos publicados, provavelmente a maior autoridade da área de biologia evolutiva na França. O sujeito me acolheu em sua família sem me conhecer muito bem e se mostrou uma pessoa extremamente aberta, simples, agradável e interessante. Não obstante, um verdadeiro ser humano num sentido sartreano e existencialista, cheio de contantes dúvidas sobre sua relação com as pessoas à sua volta e ao seu futuro profissional e pessoal: uma pessoa de verdade.

Sinto-me muito feliz e honrado em ser respeitado tanto como pessoa quanto como profissional. O professor, além de tudo, escuta minhas idéias e dá valor a elas. Repete o que digo a ele para outras pessoas mostrando que realmente se interessou pelo assunto e concordou com minha opinião. Ontem ele veio à sala em que estou trabalhando quase que uma dezena de vezes para me ensinar alguma coisa ou comentar sobre algum artigo que achasse interessante que eu tomasse conhecimento. Nunca fui tão bem recebido e escutado.

Além de tudo, a cidade de Marseille é agradável e lembra de certa forma o Brasil. Como tenho a oportunidade de me mudar para cá -- uma vez que o projeto de pós-doutorado em que estou inserido é colaborativo -- creio que vou chegar em Strasbourg e plantar a idéia na cabeça dos chefes. Talvez dentro de menos de seis meses eu já possa estar de mudança para cá. É claro que as coisas não serão as mil maravilhas que suponho e é claro que haverão problemas, mas estou de certa forma convicto de que este grupo de pesquisa e esta cidade serão melhores para mim tanto com relação ao lado pessoal quanto profissional. Mas já sinto aquela dorzinha em abandonar os grandes amigos que fiz em Strasbourg...

Quarta-feira, Setembro 10, 2008

Ranking universitário

Segundo o IGC*, novo índice do MEC para a avaliação do desempenho das universidades federais, Minas Gerais apresenta 3 instituições de ensino superior dentre as 6 avaliadas com a melhor nota (5) entre as universidades federais brasileiras.

Parabéns à UFMG, UFV e UFTM!

Apesar de ser um crítico constante do sistema acadêmico, científico e institucional das universidades -- particularmente da UFMG onde me formei como biólogo, geneticista (MSc) e bioinformata (PhD) -- sei muito bem que tive a sorte e a oportunidade de realizar excelentes curso de graduação e pós-graduação. Aqui no exterior, percebo frequentemente que minha formação acadêmica é mais completa e abrangente do que a da maioria dos biólogos em geral, venham eles de onde vierem. Ponto pra UFMG (e pra mim também).

O título de melhor universidade segundo os quesitos avaliados ficou pra UNIFESP. As outras duas universidades avaliadas com o maior conceito foram universidades gaúchas.

Da Folha de São Paulo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u442710.shtml

* "O IGC foi criado para, em um só indicador, medir a qualidade dos cursos de graduação, mestrado e doutorado. Para a graduação, é utilizado o CPC (Conceito Preliminar de Curso), baseado, entre outros dados, no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), do Censo da Educação Superior e na infra-estrutura, corpo docente e programa pedagógico. A avaliação dos programas de pós-graduação é feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior), que acompanha anualmente o desempenho dos programas. A média dos conceitos do IDC é ponderada pela distribuição dos alunos entre a graduação, mestrado e doutorado."
Por LORENNA RODRIGUES da Folha Online, em Brasília

Quinta-feira, Setembro 04, 2008

Super dica de curta-metragens

Super-recomendada a cinemateca de curta-metragens do site do projeto releituras.

Já faz bem uma ou duas semanas que chego em casa do trabalho, cansado, e quase todos os dias assisto um ou dois ou três ou quatro ou cinco dos curtas do site. É uma seleção muito bem feita e contém curtas muito intessantes e deliciosos de assistir.

Algumas dicas boas:
* Cartas da mãe: documentário sobre a vida e obra do cartunista Henfil
* Clandestina felicidade: adaptação de conto da Clarice Lispector
* Ilha das flores: simplesmente o melhor curta-metragem educacional e social que eu já tenha assistido. Nota 100!
* Os filhos de Nelson: história baseada na obra Nelson Rodrigues
* Além de outros documentários sobre a vida e obra de Nelson Sargento, Bezerra da Silva, Zeca Pagodinho, etc.

Ainda não assisti todos, continuo na árdua e agradável tarefa de vê-los. Tem muita coisa boa também, além destes que citei rapidamente.

A você, um bom filme!

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Quebrei o braço

Foi na última terça-feira. Voltava pra casa do serviço depois de passar numa loja para comprar umas blusas de meia-temporada pois que o outono já tem cara de estar chegando. Andava daquele jeito despojado que tenho de andar de bicicleta. Ia sem as mãos e fazia manobras para me desequilibrar e então me equilibrar de novo, essas brincadeiras assim. Ainda assim, não foi esta a culpa do tombo. A displicência ocorreu quando coloquei minha mochila no porta-bagagem sobre a roda traseira da magrela. Não coloquei muito bem a mochila ali e a alça da mesma enroscou na roda na hora do tombo, parando imediatamente a roda de trás da velô -- como dizem por aqui. Ia rápido, marcha mais veloz. A roda parou de repente e também a bicicleta. Continuei meu movimento inercial para frente, trombei no guidão e caí para o lado direito. Foi tudo muito rápido, não vi muito bem o que tinha acontecido. Ia pela rua, os carros passavam. Na hora que caí, não havia nenhum veículo por perto, felizmente. Caí para o lado direito, onde os carros estavam estacionados. Protegi-me da queda com o braço e ralei todos os meus apoios do lado direito. Ombro, cotovelo, pulso e joelho. Dei sorte de não ter batido a cabeça e nem mesmo a cintura cheguei a machucar. Quando vi estava no chão, tonto, a bicicleta por cima. Veio um sujeito que andava de bike para o outro lado me acudir. Ele parecia mais nervoso que eu. Levantou minha velô, ajudou-me a levantar. A bicicleta dele havia ficado no meio da rua. Agora um carro passava e ele foi tirá-la de lá. Tentei ficar em pé mas estava bem tonto. Segurei no poste. Todo meu lado direito doía muito. Entretanto não pensei que tivesse quebrado coisa alguma, pensei que estava tudo doendo por causa do tombo. O sujeito perguntou se eu queria alguma coisa, alguma ajuda. Eu disse que não. Agradeci e falei que estava bem. Ele perguntou de novo e eu agradeci de novo, ele foi embora. Agora arrependo, devia ter ficado mais tempo conversando com ele porque nem eu -- e nem ele -- estávamos bem. Ele vira minha queda de camarote e estava também eufórico. Ele se foi. Assentei-me no chão por um tempo até que a cabeça parasse de rodar. Não parou. As pessoas passavam em volta. Levantei-me custosamente, estava cerca de 500 metros de casa. Tentei pegar a bicicleta percebendo que meu braço não estava lá muito bem. Mesmo assim ajeitei a mochila no porta-bagagem com as roupas novas e fui andando e levando a bike, a passos de tartaruga, até chegar em casa. Ombro e cotovelo e pulso e joelho ralados. Nunca demorei ou sofri tanto para andar meio quilômetro. A bicicleta estava em perfeito estado, nem parecia ter caído. Eu estava tonto e com dores. Prendi-a no primeiro lugar que encontrei do lado de fora do prédio e subi de elevador. Cheguei em casa e queria apenas me deitar. Tomei ainda um banho para me tranqüilizar e decidi tomar um anti-inflamatório para evitar algum tipo de reação inflamatória no braço. Liguei para a gatinha, que não me atendeu. Liguei para o amigo-doutor, que também não me atendeu. Liguei para o Gustavo e disse que tinha caído e que era pra ele ficar com o celular do lado da cama esta noite. Se eu precisasse dele, ligaria. Ele se mostrou solícito e preocupado; falou que faria isso sim. Dormi até bem e acordei no dia seguinte com o braço ainda bastante dolorido, na dúvida se iria ao trabalho ou não. Decidi não ir, mandei um e-mail para os chefes explicando a situação e fui procurar resolver o problema, indo primeiro ao seguro social para pegar um número que se usa aqui na França para casos médicos e que eu ainda não tinha. Fiquei algum tempo para conseguir um número provisório que depois descobri não adiantar em nada. No seguro social também não souberam me indicar nenhum médico para visitar. Liguei para o Gustavo e ele me convidou para almoçar com ele, dizendo que depois ligaria para seu médico e que iríamos juntos. Almocei na casa do amigo enquanto discutíamos desigualdades no Brasil. Eu com minha visão assistencialista, ele com sua visão individualista. Como seu médico não atendia aos repetidos telefonemas, fomos à medicina universitária. Uma médica loira, quarentona e bela, que gostava do sotaque brasileiro, atendeu-me e fez um pedido de radiografia para o pulso e o cotovelo. Eu que pedi, talvez devesse ter pedido para o ombro também. Os médicos confiam muito nos pacientes. O Gustavo ainda me acompanhou e esperou a radiografia ser feita, radiografia esta que tive que pagar devido ao fato do tal do número provisório não funcionar e que revelou que meu pulso estava bom mas que eu havia quebrado a ponta de um dos ossos do cotovelo; provavelmente precisaria engessar. Voltei à médica loira e quarentona e ela ficou surpresa com o diagnóstico, não pensava que havia quebrado. Ela não poderia engessar, eu teria que ir a um hospital do outro lado da cidade. O Gustavo a essas horas já havia sido dispensado e agradecido pela ajuda, fora cuidar de seus afazeres. Peguei o trem e uma hora depois cheguei ao hospital da Hauptpierre. Custei a encontrar o lugar certo onde deveria ir. Finalmente cheguei na seção de emergências traumatológicas e fui atendido. Preenchi algum formulário e fui então direcionado a uma sala de espera. Apesar de haver só mais um sujeito por lá, fiquei ainda esperando por cerca de uma hora até ser atendido. Neste ínterim, li todas as informações que iam nas paredes e já sabia algo sobre os procedimentos hospitalares franceses. Tendo sido finalmente recebido pelo médico, ele me perguntou o que fazia e eu disse que era pós-doutor, trabalhava na universidade. Perguntou-me então o que acontecera e expliquei tudinho, inclusive sobre o anti-inflamatório. Ele perguntou se eu era biólogo mesmo ou médico, fez cara de quem não gostou da minha auto-medicação. Perguntou se eu havia tomado algum tipo de vacina contra o tétano nos últimos dez anos. Pela minha dificuldade de expressão em francês, ele já havia percebido que era estrangeiro e falei que vinha do Brasil. Mais uma vez, cara ruim. Não vacinado, brasileiro. A vacina anti-tetânica durava dez anos e era preciso tomar três doses durante dois ou três meses. Ficou na dúvida sobre o tempo entre as doses, mas não conferiu. Disse que eu deveria tomar. Perguntei porquê, uma vez que o tétano era causado por uma bactéria anaeróbica e normalmente acontecia quando do corte profundo feito com metais. Se eu havia apenas ralado e deixasse a ferida aberta, não haveria chance de pegar tétano. Ele, entretanto, disse que havia perigo sim e que eu deveria tomar a vacina: era só uma picadinha, afinal. Além disso completou dizendo que o tétano não era provocado por uma bactéria, mas por um "germe" e que causava retesamento muscular e outros sintomas que poderiam me matar em questão de dias. É claro que ele estava errado sobre o "germe": "germe" é um termo geral utilizado para micróbios como bactérias, fungos ou vírus. O tétano é sim, como eu havia dito, mais especificamente causado por uma bactéria anaeróbica. Fiquei desconfiando do médico e então disse-lhe que não sabia se queria tomar a vacina pois que tinha vários amigos imunologistas que questionavam o poder da vacina. Disse-lhe também que a teoria por trás da vacinação ainda não é bem compreendida e perguntei se eu poderia não tomar a vacina. Ele disse que eu bem poderia, mas recomendou novamente falando dos sintomas e dizendo que se tratava apenas de uma picadinha. Enfim, mesmo estando impressionado pelo fato do médico não saber a diferença de doenças bacterianas para doenças virais ou fúngicas, resolvi aceitar. No fundo, é fato que mesmo os imunologistas concordam que a vacinação é efetiva para evitar doenças e por vezes lembrei de ter tido um certo retesamento muscular. Seria tétano? Acho que não, mas... Preferi tomar a vacina e então o outro médico, que lembrava um dos doutores loucos daquele filme "brilho eterno de uma mente sem lembranças", aplicou a injeção em meu braço. Ele quis aplicar no braço esquerdo, mas pedi para fazê-lo do direito, que já estava inutilizado mesmo. E então apareceu na sala uma enfermeira gorda com uma tipóia especial. Não seria preciso engessar. Achei ótimo! Colocou a tipóia em mim com cuidado e não me deixou mexer, ela que colocaria. Ficou desconfortável. Talvez fosse mesmo pra ficar assim. O médico disse-me para que voltasse duas semanas depois para fazer outra radiografia e ver como estava o braço. Provavelmente demoraria ao menos duas semanas para voltar ao normal. Saí finalmente de lá, feliz por não ter sido engessado, impressionado com o fato do médico não saber que tétano era uma doença bacteriana e prevendo duas semanas difíceis. Não tenho muita força, nem consigo apoiar nada com o braço direito, embora tarefas como digitar um texto como este não sejam por demais problemáticas se feitas de tempos em tempos. Já lavar roupas e louças, varrer a casa e arrumar a cama serão tarefas por demais incômodas durante este tempo. Estou mais chato do que o normal e sensível a coisas simples. A doença nos faz questionar nossos valores e perceber o quanto a saúde é um bem vigoroso. De fato os deficientes precisam mesmo de ajuda social, o mundo é muito mais difícil para eles. Tenho apenas um braço quebrado e tudo que gostaria era de ficar na cama com alguém fazendo todos os meus desejos. Ah, se eu pudesse... aqui estou no serviço a trabalhar mesmo que o médico tenha me dado um formulário que me permite faltar o trabalho por duas semanas. Essas coisas não funcionam na prática, dá vontade de pedir ao médico para ligar ao chefe. Mas ele jamais faria isso. Enfim, preciso voltar ao trabalho, já divaguei demais por hoje. Deseje-me boa sorte na recuperação.

Terça-feira, Agosto 26, 2008

Indianos não falam francês?

Morando aqui em Estrasburgo há quase oito meses já conheci ao menos uma meia-dúzia de indianos e pelas ruas fui capaz de perceber uma certa quantidade de outros nativos deste país oriental de religião hindu. Parece-me estranho que eu não tenha conhecido nem um único indiano que ao menos tentasse falar o francês. Eles parecem ver este país como uma passagem temporal deles durante a vida e, assim, parecem não se esforçar para falar o idioma. Enfim, alguém conhece algum indiano que fala francês? Dentre todos os indianos que estão na França, qual será a porcentagem deles que fala francês?

Dentre meus amigos brasileiros, muitos também estão aqui neste país e sabem que esta estadia terá uma data de término. Não obstante, todos tentam falar o idioma de Voltaire e, de fato, muitos falam-no muito bem. Eu também estou aqui meio de passagem: definitivamente não penso em morar toda minha vida neste país e sei que em breve estarei zarpando para outros rumos. Entretanto, tenho um prazer em tentar falar o francês e tentar me inserir na cultura deles tanto quanto possível. É interessante conhecer mais sobre as diferentes formas que os humanos encontraram para viver em sociedade. É uma odisséia um tanto quanto interessante esta de tentar ver o mundo como um francês e descobrir novas palavras e novas formas de descrever o mundo através da língua do pequeno-grande general Napoleão. As linguagens são uma forte representação da cultura e compreender a forma como os indivíduos interagem entre si é conhecê-los melhor, é entender mais o mundo e é compreender melhor o ser humano. Sei que em qualquer lugar que eu me aventure a viver ao longo de minha vida, tentarei compreender os seres humanos ao meu redor -- e esta compreensão passará, necessariamente, por entender como e o quê eles falam; essa compreensão passa indubitavelmente pela aquisição da linguagem.

Enfim, não sei o que se dá com os indianos e talvez eu generalize em demasiado o comportamento de um povo a julgar por meia-dúzia de observações feitas por aqui. Devo confessar também que a língua francesa é mais fácil de ser aprendida por um brasileiro, originalmente falante de português -- língua também de raiz latina --, do que por um indiano que normalmente é versado em dialetos como o hindi e o inglês. Para quem sabe inglês e francês é óbvia a influência retro-alimentativa de uma língua na outra e diversas palavras em francês têm origem em vocábulos da língua inglesa, assim como o contrário também é bastante verdadeiro. Impossível mensurar qual língua tem influenciado mais a outra ao longo dos séculos. Duvido que os indianos teriam dificuldades extremas em falar o francês e a negação deles para tanto pode ser um reflexo de uma mentalidade fechada, embora eu possa estar concluindo esta análise de forma apressada.

A língua francesa parece ainda mais difícil de ser apreendida pelos orientais, cujo alfabeto é completamente diferente e os fonemas são desastrosamente dissimilares tanto com relação às línguas derivadas do latim, quando às de raízes anglo-saxônicas. Apesar disso, conheço algum número de orientais que está interessado em aprender francês, apesar das dificuldades. Outros orientais que conheci estão satisfeitos em falar inglês. Vale notar que toda minha experiência com estrangeiros aqui na França se restringe àqueles que fazem pós-graduação e falo de pessoas que ocupam este nicho profissional, normalmente trabalhando nas universidades. Vale notar aqui também que quando trabalhei na Inglaterra, eu via alguns cargos de chefia sendo ocupados por indivíduos de origem indiana. Aqui na França, não se vê o mesmo. Voltando ao povo tupiniquim, todos os brasileiros que conheço ou falam bem o francês ou estão ao menos interessados em aprendê-lo. Entre meus amigos aqui ainda sou aquele que fala pior esta língua, mesmo porque estudei pouco e fui o último a chegar por aqui. Normalmente eles me congratulam pelo tanto que falo, considerando o tanto de tempo em que aqui me encontro. Mesmo levando isso em consideração, não faço aulas e aprendo com o cotidiano. Continuo falando e escrevendo constantemente em meu francês ligeiramente incorreto e já não tenho tido problemas sérios de comunicação há alguns meses; embora pequenos problemas surjam todos os dias. De fato, preciso eu também estudar mais.

Sexta-feira, Agosto 22, 2008

É isso aí, Lula!

Da Folha On Line: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u436192.shtml

Lula chama estudantes ricos de "babacas"
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LETÍCIA SANDER
enviada da Folha de S.Paulo a Juazeiro do Norte (CE)

Em um discurso inflamado durante inauguração de um campus universitário em Juazeiro do Norte (CE), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva taxou ontem à noite seus críticos de "babacas" que não entenderam a "revolução" na área da educação.

Lula usou duas vezes a palavra "babaca". A primeira foi ao falar do Prouni (Programa Universidade para Todos), classificado por ele de "idéia genial".

"Quando criamos o Prouni tinha um tipo de gente que fazia discurso assim contra o governo: "ah, estão privatizando a educação", "ah, estão dando dinheiro para universidade particular". Ou seja, os babacas não percebiam que estávamos fazendo uma revolução na educação brasileira", afirmou.

Logo depois, reclamou dos estudantes que protestaram contra a alteração, via Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), que aumenta de 12 para 18 a média de alunos por professor nas universidades federais.

"Aí tinha um tipo de estudante daqueles que vocês sabem, que vai para a reitoria querer bater no reitor. "Ah, 18 alunos é muita gente na sala de aula, 18 alunos vai atrapalhar a educação". O babaca rico que já estudava não queria que o pobre tivesse a chance", disse, evocando o discurso de ricos e pobres, e dizendo que prefere governar para os últimos.

"Eu digo todo dia: governo para todos, não discrimino ninguém. Mas faço como a minha mãe. Se eu tiver um bife, não tem um filho mais bonito que vai comer sozinho não. Todos vão dar uma lambidinha."

Lula fez diversas referências ao próprio passado no discurso. Numa delas, culpou seus antecessores pela violência urbana ao dizer que "a política econômica estabelecida neste país nos últimos 40 anos fez gerar duas gerações de jovens sem oportunidades". Então lembrou ser o oitavo filho de uma família pobre, na qual "ninguém virou bandido, nem nunca roubou um centavo".

Depois, falava da frustração de não ter podido estudar mais - ele não tem curso superior - quando então confidenciou que, se pudesse, teria optado pela economia.

Num momento de preocupação com a inflação e freqüentes críticas de bastidores à atuação do ministro Guido Mantega (Fazenda), ele alfinetou: "Porque economista é uma beleza. Quando economista é oposição, ele tem solução para tudo. Quando ele chega no governo, não tem solução para nada".

O presidente ironizou o desempenho da seleção nas Olimpíadas, ao dizer que "se os jogadores da seleção olímpica tivessem a mesma garra que os estudantes do Prouni, a gente teria agora que disputar medalha no domingo". Alguém da platéia lembrou que o futebol feminino ainda está na disputa.

"Ah, as mulheres são as mulheres... Por isso é que eu sou cada vez mais mulher", aproveitou. Ao seu lado, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), tida como o nome do PT para 2010, sorriu. Ao fim do discurso, Lula disse esperar que quem vier depois dele seja melhor. A platéia, formada na maioria por petistas e simpatizantes do governo, interrompeu sua fala aos gritos de "Dilma, Dilma".

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Homenagem a Dorival Caymmi

Estive fora por uns dias e quando voltei, fiquei sabendo que Dorival Caymmi morreu. Sempre tenho um pouco de tristeza quando morre algum desses meus ídolos do samba. Caymmi tinha um samba bem puro e bem característico; natural e agradável aos ouvidos.

Segue como homenagem neste blogue, uma das músicas do compositor que mais gosto e que fala, na minha opinião, sobre a decisão que fazemos sobre envolver-mo-nos ou não num relacionamento. Esta é também uma das músicas que mais gosto de tocar quando sozinho em casa e até hoje pelejo para tocá-la de fato bossanovamente; a quedinha do "como é que nós vamos fazer?" tem uma meia dúzia de acordes que ainda não decorei muito bem.

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Doralice
Composição: Dorival Caymmi / Antônio Almeida

Doralice eu bem que lhe disse,
Amar é tolice,
É bobagem, ilusão

Eu prefiro viver tão sozinho,
Ao som do lamento do meu violão

Doralice eu bem que lhe disse,
Olha essa embrulhada,
Em que vou me meter

Agora amor, Doralice meu bem,
Como é que nós vamos fazer?

Um belo dia você me surgiu,
Eu quis fugir mas você insistiu
Alguma coisa bem que andava me avisando,
Até parece que eu estava adivinhando

Eu bem que não queria me casar contigo,
Bem que não queria enfrentar, esse perigo Doralice

Agora você tem que me dizer,
Como é que nós vamos fazer?

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Uma pequena análise: gosto particularmente desta música porque normalmente consigo perceber durante o começo de uma relação amorosa em que eu esteja participando, quando é que as coisas começam a tender para o lado do "relacionamento sério". Normalmente é o que se quer mesmo, ao menos no meu caso que sou adepto da monogamia e gosto de dar e receber amor. Enfim, chega-se sempre um momento na relação que se percebe: se passarmos daqui, teremos que nos comprometer um com o outro e mudaremos nossas vidas de uma forma tal que ela não será mais a minha ou a sua vida, porém a nossa.

Talvez a Doralice da canção fosse casada, tivesse algum outro impedimento que não a deixasse ficar com o autor. É possível. Mas talvez ela não tivesse impedimento algum mesmo e o autor estivesse apenas nesta angústia de ter que mudar sua vida por causa de um amor. Será que ambos quereriam isso mesmo? Entregar-se a este amor? Entrar de cabeça na relação?

Enfim, como de fato acontece no caso dos verdadeiros amores, nesta canção também Doralice e o eu-musical (o eu-lírico da canção) não conseguiram se ver separados e, agora, há algo que devem fazer. Como é que farão? Como é que nós vamos fazer, Doralice?



Salve, Caymmi.

Terça-feira, Agosto 12, 2008

Ciência, academia, filosofia e retórica


Estou aqui lendo o artigo que outras pessoas escreveram e em que divido a primeira autoria com um americano. É o primeiro artigo que sou primeiro autor e não escrevi a maior parte, isso me incomoda bastante. Cheguei a pedir pra mudar de posição, mas a chefa insistiu para que eu ficasse na frente pois isso seria melhor para mim, para ela e para todos os outros autores. A academia científica não é meritocrática, ela tem um aspecto social forte. Não me sinto o primeiro autor deste paper, não teria escrito as coisas com estas palavras, desta forma, nesta ordem. Minha identidade não está neste trabalho. Ele foi escrito principalmente pelos dois últimos autores, os verdadeiros "orientadores" do projeto. Mas eles já são velhos demais para ficarem como primeiros autores, eles querem ser últimos autores, pois em biologia o estatus do último autor como "orientador" vale muito.

Enfim, este artigo está prestes a ser submetido a uma revista científica de auto-nível na nossa área de pesquisa. Estava lendo agora a metodologia do mesmo e foi isso que me trouxe aqui a fazer este relato. O paper descreve, nesta seção, uma série de passos que parecem ter sido seguidos até que alcançássemos nosso objetivo final. A racionalização dos passos para a elaboração do trabalho na parte relativa à metodologia do artigo parece simples e clara, racional e precisa, prevista racionalmente e tendo objetivos alcançados. Mas tudo isso é uma enganação, tudo o que fizemos foi realizado de uma forma bem anárquica e sem muitas regras. A retórica está presente em toda atividade humana; parece que é preciso mascarar essa anarquia procedural dos outros pesquisadores e, então, temos uma metodologia falsa que parece perfeita; se tivéssemos mesmo parado e pensado racionalmente no que faríamos antes de realmente sentarmos para fazermos. O que acontece de fato é que sentamos em meio a brainstorms e é daí que o trabalho vai nascendo: da discussão, da argumentação e das coincidências entre o que pensamos, um modelo conceitual novo para descrever o mundo ou, mais especificamente neste caso, a biologia evolutiva.

O problema -- e também a beleza -- da ciência vem justamente do fato de que se propõe um projeto e recebe-se financiamento para ele sem que os cientistas realmente saibam o que vai ser feito. A ciência se constrói no fazer. Ela muda, os objetivos mudam, os dados mostram coisas que não imaginávamos ou não mostram padrões previamente imaginados. Mesmo a articulação dos conceitos se modifica entre o que pensávamos e o que passamos a pensar. A realidade não se adapta e não tem que se adaptar aos incompletos e simplísticos modelos que os humanos têm dela. A realidade é anárquica e complexa. Não há nada senão o caos. Os padrões observados no universo e na natureza são tênues e eles não se adaptam a uma idéia fixa, a um modelo fixo e quadrado que os humanos têm do mundo que os envolve. É por isso que a ciência sempre questiona seus próprios padrões, por isso ela sempre se renova. Ela é uma busca constante de uma regularidade que não existe, que existe apenas de forma aproximada, a ciência é uma descrição de uma regularidade irregular. Todos nossos modelos são falhos em um sem-número de aspectos e muitas vezes eles não permitem que os dados experimentais sejam nele assentados. Então a teoria tem que mudar, tem que se adaptar.

Enfim, exagero na filosofia. Só queria dizer que a ciência tem muito de retórica e muito do que descrevemos neste artigo é falso, de um ponto de vista metodológico. A metodologia foi feita em retrospecto, considerando o que tínhamos no final e o que deveríamos ter feito, desde o início, se já soubéssemos o que iríamos alcançar no ponto final ao qual chegamos e onde consideramos que tínhamos uma boa história para contar. Mas não sabíamos quando ou se chegaríamos ali; tentamos anarquicamente várias estratégias até chegarmos em nosso objetivo. Ouso dizer que nenhuma metodologia de nenhum artigo científico é verdadeira! -- ou que ela pode ser verdadeira apenas para muito poucos artigos científicos de nenhuma característica inovadora, apenas descritiva. Quando realmente se cria e se descobre algo, o método para fazer isso deve ser exploratório e anárquico. Eis a beleza da ciência.

E, depois, o cientista precisa imaginar o que deveria ter feito se, desde o início, soubesse o que encontraria no final. É isso que vai para a seção de metodologia de um artigo científico. Não é o que se fez, mas sim o que se deveria ter feito. A metodologia deveria ser escrita, inclusive, com condicionais e no futuro do pretérito.

O filme do Vinícius


Re-assisti algumas vezes por aqui também o filme do Vinícius de Moraes, lançado em 2005. Se você o assiste permitindo-se ser tomado por emoções fortes, você consegue isso a todo instante. Vale a pena assistir e re-assistir o filme quando se está à flor da pele.

Teria várias coisas a comentar sobre o filme, mas teve uma frase dita por Ferreira Gullar, citando T. S. Eliot que me serviu como carapuça. Depois de comentar como Vinícius era mesmo um sujeito que vivia com a emoção sempre à flor da pele, chorando por diversas vezes ao se lembrar de certos amigos e tal, Gullar se lembra desta frase de Eliot: "o poeta escreve para se livrar das emoções". "O poeta quer se livrar daquilo, ele quer se libertar, fique pra você esta emoção porque eu não aguento, fique pra você!", dizia Gullar. Neste mesmo toque de caixa, vale dizer que sempre que estou agonizado e com dúvidas existenciais, gosto de escrever. Isso me permite exatamente racionalizar o sentimento, analisá-lo friamente e, de certa forma, permite-me desfazer dele. Sinto isso muitas vezes depois de escrever um texto ou uma poesia, que meu sentimento agora se acalmou um pouco. Escrever nos livra dos sentimentos fortes. E um grande poeta como Vinícius certamente tinha sentimentos muito fortes para se livrar e talvez por isso tenha sido tão grande como foi, na poesia e na música popular.

Particularmente me vem à cabeça agora outra parte do filme onde se comenta sobre um jovem negro que teria assobiado para uma garota branca e sido morto a tiros por policiais, talvez na África do Sul. Isso aí me chocou muito e me fez refletir também sobre como esta sociedade é mesmo uma coisa escrota.

Deveria ter anotado mais coisas neste caderno sobre o filme, pois lembro que me emocionei muito nas últimas vezes em que o assisti.